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Eburobrittium: uma topografia do esquecimento

Lisboa, Roma ou Paris atravessaram guerras, incêndios, epidemias e mudanças de regime sem perderem a continuidade da sua presença humana. Outras conheceram um destino mais estranho, pois foram abandonadas, esquecidas, apagadas da memória dos povos. Eburobrittium insere-se nesta segunda categoria. Sendo uma das histórias mais fascinantes do património português, não apenas pela arqueologia que revelou as suas ruas, as suas termas ou o seu fórum, mas pela reflexão mais profunda que suscita acerca da memória, da civilização e da própria condição humana, vive agora uma condição pouco interessante.

Durante séculos, Eburobrittium existiu apenas como um nome mencionado por Plínio, o Velho (Gaius Plinius Secundus, 23-79), na sua História Natural, algures entre Collipo[1] e Olisipo[2]. Uma denominação que os eruditos copiavam, comentavam e discutiam, mas que ninguém conseguia situar com segurança no território. Era quase uma abstração. Uma realidade documental sem veracidade física.

Platão (428/427-348/347) perguntava-se se as ideias existiam independentemente das coisas. Eburobrittium parecia demonstrar o inverso: durante muito tempo a ideia sobrevivera à matéria.

A redescoberta desse histórico sítio arqueológico, foi iniciada em 1994 durante os trabalhos associados à construção das autoestradas A8 e A15, e resolveu um enigma que atravessara gerações. As escavações dirigidas por José Beleza Moreira revelaram progressivamente aquilo que durante séculos permanecera oculto sob os terrenos das Gaeiras. Não surgiu somente um simples conjunto de ruínas dispersas, emergiu uma verdadeira cidade romana, dotada de urbanismo organizado, edifícios públicos, habitações, termas, sistemas de drenagem e uma estrutura cívica que testemunha a plena integração daquele território no universo da Lusitânia romana.

Mas limitar a importância de Eburobrittium à descoberta arqueológica seria reduzir a sua dimensão histórica. O que ali se encontra é, acima de tudo, um testemunho material de um fenómeno muito mais vasto: a capacidade que Roma teve para transformar paisagens, sociedades e mentalidades.

Os Romanos não conquistavam apenas territórios. Submeteram os espaços adquiridos a uma eficaz organização. Antes de Roma, a maior parte das comunidades humanas estruturava-se em torno de relações tribais, familiares ou locais. Com Roma emerge uma lógica diferente. A cidade passa a funcionar como instrumento de administração, integração económica e difusão cultural. A urbe romana não é apenas um aglomerado de edifícios. É uma máquina social. Eburobrittium nasceu dessa visão.

A localização escolhida dificilmente poderia ser mais reveladora. A cidade implantou-se numa encosta suave voltada para a antiga lagoa de Óbidos, num momento em que a configuração costeira era profundamente diferente da atual. A lagoa estendia-se muito mais para o interior, oferecendo acesso privilegiado ao Atlântico e funcionando como corredor de circulação de pessoas e mercadorias. Nas proximidades existiam recursos minerais, como cobre, gesso e carvão, além de águas sulfúreas e solos férteis. Não estamos perante uma escolha casual, mas sim um ato racional de ordenamento territorial.

Existe uma tendência moderna para considerar o planeamento como uma característica das sociedades contemporâneas. Contudo, basta observar o mapa das fundações romanas para perceber que essa preocupação é muito mais antiga. Roma compreendia aquilo que muitos Estados posteriores demorariam séculos a alcançar: as cidades não surgem apenas onde vivem pessoas; as cidades criam novas formas de vida.

A própria cronologia da fundação de Eburobrittium parece enquadrar-se nos grandes programas urbanísticos do período augustano[3], provavelmente nos finais do século I antes de Cristo. Augusto compreendeu que a estabilidade do Império não dependia apenas das legiões. Dependia igualmente da criação de centros urbanos capazes de integrar populações diversas numa mesma ordem política e económica. Em muitos aspectos, as cidades foram a verdadeira infraestrutura do Império.

Quando observamos o fórum de Eburobrittium, ainda que parcialmente escavado, percebemos essa realidade. As lojas, ou tabernae, os espaços administrativos, a basílica e a praça central não constituíam apenas elementos arquitetónicos. Eram dispositivos sociais. O fórum era simultaneamente mercado, centro político, tribunal, local de encontro e palco da vida pública. A sua existência revela algo fundamental sobre a civilização romana: a valorização do espaço comum.

Na sociedade contemporânea, marcada pela fragmentação digital e pela privatização crescente das relações humanas, talvez seja difícil compreender plenamente a importância destes espaços. O cidadão romano encontrava-se fisicamente com os outros. Via-os. Discutia. Negociava. Litigava. Participava. A cidade era uma experiência coletiva antes de ser uma prática individual.

É impossível não estabelecer aqui uma reflexão sociológica. Ao longo da História, a qualidade das cidades dependeu menos da monumentalidade dos seus edifícios do que da qualidade das interações que permitiam. Uma praça pode parecer um simples vazio arquitetónico. Na realidade, é um lugar onde se constrói comunidade. Talvez por isso as grandes civilizações tenham investido tanto nos seus espaços públicos. Não porque apreciassem apenas a beleza, mas porque compreendiam intuitivamente a importância da convivência.

As termas de Eburobrittium reforçam essa leitura. Muitas vezes imaginadas como simples instalações de higiene, desempenhavam funções muito mais amplas. Eram locais de sociabilidade, lazer e circulação de informação. Os Romanos encontravam-se nas termas para conversar, estabelecer contatos, ouvir novidades e reforçar laços sociais. Numa época sem jornais, rádio ou internet, a informação circulava através das pessoas. E as termas constituíam um dos grandes nós dessa rede humana.

Curiosamente, a sociologia contemporânea recuperou algumas destas intuições. Autores como Ray Oldenburg (1932-2022) chamaram a atenção para a importância dos chamados "terceiros lugares", espaços que não são nem a casa nem o trabalho, mas onde as comunidades se formam e se fortalecem. Cafés, praças, clubes ou bibliotecas desempenham hoje funções que, em certa medida, recordam aquelas que as termas desempenhavam há dois mil anos.

A arqueologia permite-nos também entrever aspectos mais íntimos da vida diária. Os restos de fauna encontrados, incluindo bovinos, cervídeos, javalis e ostras, revelam práticas alimentares diversificadas e uma exploração intensa dos recursos da lagoa. As cerâmicas importadas demonstram a integração da cidade em redes comerciais de longa distância. O vidro, os objetos metálicos e as moedas testemunham uma economia dinâmica e aberta ao exterior.

Por vezes esquecemo-nos de que o Império Romano era, em muitos ângulos, uma forma precoce de globalização. Um comerciante de Eburobrittium podia adquirir produtos fabricados a centenas de quilómetros de distância. Técnicas construtivas, modas, crenças religiosas e práticas culturais circulavam continuamente. A cidade participava numa vasta rede que ligava o Atlântico ao Mediterrâneo Oriental, a Britânia ao Norte de África.

A globalização não nasceu no século XXI. Mudaram as velocidades. Mudaram as tecnologias. A lógica fundamental permanece surpreendentemente semelhante. Contudo, nenhuma ordem humana é eterna.

A história de Eburobrittium recorda igualmente a fragilidade das civilizações. Durante cerca de cinco séculos, a cidade prosperou. Depois iniciou-se um lento declínio. A crise do Império Romano, as transformações económicas, a insegurança crescente e as alterações ambientais alteraram profundamente as condições que tinham sustentado o seu desenvolvimento. A lagoa foi assoreando. As rotas comerciais perderam relevância. As populações procuraram locais mais defensáveis, nomeadamente a elevação onde viria a afirmar-se a Óbidos medieval.

Existe uma tendência recorrente na História para interpretar o colapso das sociedades através de acontecimentos dramáticos: invasões, batalhas, revoluções. Todavia, muitos declínios resultam de processos mais subtis. O historiador Fernand Braudel (1902-1985) insistia precisamente nesta ideia. Por detrás dos grandes acontecimentos existe sempre uma história lenta, feita de alterações económicas, geográficas e ambientais que transformam silenciosamente a vida das comunidades. Eburobrittium encaixa perfeitamente nesse modelo. A cidade não desapareceu numa noite. Foi perdendo importância, esvaziando, deixando de fazer sentido. O que acaba por ser uma das formas mais humanas de desaparecer.

Quando finalmente foi abandonada, na segunda metade do século V, não desapareceu apenas uma cidade, eclipsou-se uma determinada forma de organizar a vida das populações. As ruas silenciaram, as termas deixaram de receber visitantes, as lojas fecharam, o fórum perdeu a sua função, a natureza iniciou lentamente o seu trabalho de recuperação do território. Durante mais de mil anos, a terra guardou o segredo. E aqui regressamos à filosofia.

Santo Agostinho (354-430) escreveu que o tempo existe simultaneamente na memória, na atenção e na expectativa. O passado vive porque é recordado. Mas o que acontece quando ninguém rememora? O que sucede às cidades esquecidas?

Eburobrittium oferece uma resposta singular. Nem tudo o que é esquecido desaparece. Algumas realidades permanecem latentes. Dormem sob os campos, sob as estradas, sob as casas. Esperam. A arqueologia é a ciência dessa espera. Cada escavação desafia a ilusão de que o presente é tudo o que existe. Debaixo dos nossos pés acumulam-se camadas sucessivas de vidas humanas, projetos, fracassos, sonhos e rotinas. A superfície contemporânea representa apenas o capítulo mais recente de uma narrativa muito mais extensa. Essa é a razão profunda pela qual Eburobrittium continua a fascinar. Não apenas porque é uma cidade romana ou porque resolveu um antigo enigma historiográfico. Deslumbra porque funciona como metáfora da própria História. Uma cidade que existiu, desapareceu, foi esquecida e regressou, que demonstra que a memória humana é frágil, mas que a matéria possui uma persistência extraordinária, que recorda-nos que nenhuma civilização, por mais sólida que pareça, está verdadeiramente protegida contra a passagem do tempo.

Eburobrittium é uma cidade que, dois mil anos depois da sua fundação, continua a interrogar-nos sobre uma questão tão antiga quanto a própria humanidade: o que permanecerá de nós quando o nosso próprio silêncio chegar?

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Bibliografia consultada

·        MOREIRA, José Beleza. A cidade romana de Eburobrittium Óbidos. Porto, Minesis – Multimédia, 2002, 175p.

·        RAPOSO, Jorge. “300 sítios arqueológicos visitáveis em Portugal”. In.: Al-madan. Almada, 2001, IIª série, 10, 2001, pp.100-157.

·        REIS, António do Carmo. Nova história de Portugal: das origens ao século XXI. 4ªed. Cruz Quebrada, Casa das Letras, 2005, 243p.

·        UNIVERSIDADE ABERTA. Entre nós: cidade romana de Eburobrittium. Lisboa, Universidade Aberta, 2004.



[1] Implantado no morro de São Sebastião do Freixo, o sítio arqueológico ocupa uma posição dominante, de ampla visibilidade sobre a paisagem envolvente, numa elevação situada na zona de transição entre os atuais concelhos da Batalha e de Leiria, correspondendo hoje às freguesias da Golpilheira e da Barreira.

[2] Olisipo (também atestado nas variantes Olisīpō e Olissipona) corresponde ao topónimo latino da cidade de Lisboa, constituindo um dos principais centros urbanos da província da Lusitânia durante o período romano. Elevada a estatuto municipal (Municipium Civium Romanorum) no contexto da reorganização administrativa imperial, a cidade desempenhou funções relevantes no quadro das redes comerciais atlânticas e mediterrânicas, beneficiando da sua posição estratégica na foz do Tejo. A designação revela uma provável origem pré-romana, integrando um substrato linguístico de natureza paleo-hispânica, cuja interpretação etimológica permanece objeto de debate historiográfico, ainda que frequentemente situada no âmbito das línguas indígenas do ocidente peninsular. As tentativas de associação ao mito de Ulisses, documentadas já na Antiguidade tardia e retomadas em tradições eruditas posteriores, carecem de fundamentação histórico-linguística sólida, sendo hoje consideradas de caráter lendário.

[3] O período augustano, compreendido entre 27 a.C. e 14 d.C., equivale à fase de governo de Caio Júlio César Octaviano Augusto (63 a.C.-14 d.C.), primeiro imperador de Roma. Este intervalo cronológico é geralmente associado à consolidação do Principado e à institucionalização de um novo modelo político imperial, bem como à afirmação da chamada Pax Romana, entendida como uma relativa estabilidade interna no mundo romano. Trata-se igualmente de um período de profunda reorganização urbanística das províncias e de um notável florescimento das artes e da literatura, no qual se destacam autores como Publius Vergilius Maro (Virgílio) (70 a.C.-19 a.C.), Quintus Horatius Flaccus (Horácio) (65 a.C.-8 a.C.) e Publius Ovidius Naso (Ovídio) (43 a.C.-17/18 d.C.), cujas obras literárias contribuíram decisivamente para a construção de uma identidade cultural imperial de matriz latina.

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