André
vivia em Caldas da Rainha, cidade de águas antigas e memórias discretas, e trabalhava
noutro concelho, onde era visto, por alguns, como um homem de raciocínio
hesitante e de uma franqueza imprudente, como se a palavra se adiantasse sempre
ao pensamento.
Possuía
o hábito de comentar tudo, como se o mundo fosse matéria legítima de observação
constante, e de falar de quem não devia
com uma leveza inquietante, como se as consequências pertencessem sempre aos
outros. Expressava-se com a desenvoltura de quem acredita, sem grandes dúvidas,
que a esperteza basta para o proteger dos incómodos do mundo. A prudência,
virtude tantas vezes relegada para segundo plano, nunca lhe ocupou lugar de
relevo.
Na
região circulavam murmúrios acerca de uma figura enigmática, quase sem contorno
definido, a quem todos se referiam apenas como o Senhor do Anel. Uns atribuíam-lhe
influência discreta, mas efetiva; outros viam nele uma presença difusa, uma
espécie de poder que se exercia não pela força visível, mas por redes antigas
de lealdade e silêncio. Poucos ousavam pronunciar o nome em tom desfavorável, e
menos ainda em público.
André,
porém, não se deixava impressionar por tais cautelas. Nas conversas privadas,
em cafés onde o rumor se mistura com o vapor das chávenas, ou em encontros
ocasionais com patifes do mesmo partido político e conhecidos de passagem,
deixava escapar comentários mordazes, como quem testa os limites de uma
realidade que julga maleável. Fazia-o convencido de que, desse modo,
conquistaria simpatias e cumplicidades discretas, imaginando-se mais protegido
do que realmente estava. Pouco a pouco, convenceu-se de que as palavras, uma
vez lançadas, se dissolviam sem deixar rasto. Enganava-se.
Num
país onde tudo parece esquecido e, simultaneamente, tudo permanece, as palavras
não desaparecem. Circulam, deslocam-se, transformam-se, regressam ao ponto de
origem com um peso diferente, quase irreconhecível. André ignorou essa antiga
economia do rumor. Continuou a falar como se o mundo fosse incapaz de escutar
com atenção persistente.
Com
o passar do tempo, alguns amigos pressentiram o risco e pensaram em
aconselhá-lo a uma maior reserva. Não o fizeram. O receio falou mais alto.
Acabaram por se afastar, tomados por uma cautela crescente, quase instintiva,
perante o nome do Senhor do Anel.
Certa
manhã, ainda a luz mal rompera a névoa que se deitava sobre as ruas, André saiu
de casa para mais um dia comum. Levava consigo a habitual sucessão de
pensamentos diários, essa rotina mental que tranquiliza os dias e os torna previsíveis,
como se nada de essencial pudesse alterar-se de súbito.
Foi
então que se cruzou com dois homens. Nada neles parecia extraordinário, não
havia gesto excessivo nem palavra pronunciada em tom elevado. Aproximaram-se
com uma normalidade inquietante, dessas que não anunciam o que está para
acontecer. Eram, segundo se diria mais tarde em voz baixa, dois dos chamados Irmãos do Senhor do Anel, figuras
envoltas na mesma penumbra que rodeava o seu nome.
O
que se seguiu pertence já ao domínio do indizível. Durante dias, depois
semanas, a ausência de André instalou-se como uma presença inversa, mais forte
do que qualquer explicação. Não regressou às aulas, não voltou a ser visto, e o
seu nome começou a circular apenas como um exemplo, uma advertência discreta,
dita sempre a meia voz, como se até a memória pudesse ser vigiada.
Desde
então, quando o nome do Senhor do Anel emerge numa conversa, instala-se um
silêncio breve, denso, quase físico. Não é apenas respeito, nem sequer medo
declarado, mas uma consciência antiga de que certas forças, visíveis ou não, se
alimentam do que é dito demasiado alto.
E
André, pouco a pouco, deixou de ser apenas uma pessoa. Tornou-se uma ausência.
Uma espécie de margem na qual outros reconhecem, tarde demais, o peso exato das
palavras. Nessa transformação silenciosa o seu destino cumpriu-se por inteiro.
Mais
tarde, quando os Irmãos se reuniram
segundo os seus antigos costumes, o nome de André foi brevemente recordado.
Sobre uma mesa de nobre madeira, ao lado do livro sagrado, repousava um objeto
metálico, cuidadosamente limpo, refletindo a luz vacilante das velas.

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