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Manipular imagens, falsear a memória

Durante mais de um século, a fotografia ocupou um lugar singular no imaginário coletivo. Não observávamos apenas uma imagem, mas sim um vestígio, uma marca física deixada pela passagem do real. Podia mentir por enquadramento, por omissão, por encenação, é certo, contudo, mesmo quando enganava, permanecia ligada a um instante que efetivamente existira diante da objetiva. A sua força residia precisamente nessa ligação quase material ao acontecimento. Nos dias que correm essa certeza começou a dissolver-se.

Percorremos diariamente as redes sociais, os sítios noticiosos, os arquivos digitais e as plataformas de partilha de conteúdos sem sabermos ao certo se aquilo que contemplamos alguma vez aconteceu. Rostos inexistentes sorriem para câmaras que nunca os fotografaram. Multidões imaginárias ocupam praças onde jamais estiveram. Figuras históricas surgem em cenários fabricados por algoritmos que trabalham com uma rapidez impressionante e uma indiferença absoluta perante a verdade. A questão ultrapassa largamente o domínio da tecnologia. O problema é cultural, histórico e, talvez, civilizacional.

A memória humana sempre foi frágil. Desde a Antiguidade que os pensadores se interrogam sobre a forma como recordamos. Platão (c. 428/427 a.C. – 348/347 a.C.) desconfiava da escrita porque receava que os homens deixassem de exercitar a memória. Séculos depois, Santo Agostinho (354-430) dedicaria páginas admiráveis das suas Confissões à exploração desse misterioso palácio interior onde as recordações habitam. Já no século XX, pensadores como Maurice Halbwachs (1877-1945) mostraram que recordar não é apenas um ato individual. A memória possui uma dimensão pública, construída por comunidades, instituições, monumentos, documentos e narrativas partilhadas. O que significa que uma sociedade depende da confiança depositada nesses suportes.

Quando observamos uma fotografia dos desembarques na Normandia, das ruas de Lisboa após o 25 de Abril ou das ruínas de Hiroshima, não estamos simplesmente perante uma imagem. Encontramo-nos diante de uma peça de um património comum. Aquela fotografia funciona como uma ponte entre o presente e um acontecimento que já desapareceu. A imagem ajuda-nos a imaginar, a compreender e, sobretudo, a lembrar. É rigorosamente essa função que começa a ser corroída.

Não se trata apenas da possibilidade de fabricar falsificações, pois esta acompanha a humanidade desde tempos remotos. Pinturas, documentos, moedas e manuscritos foram adulterados muito antes da existência dos computadores. A novidade reside na escala e na facilidade. Um indivíduo sem conhecimentos especializados consegue atualmente produzir, em poucos minutos, representações visuais de episódios que nunca ocorreram. E consegue fazê-lo com um grau de realismo que, por vezes, desafia especialistas.

A velocidade com que estas imagens circulam agrava ainda mais a situação. Uma fotografia falsa partilhada milhões de vezes adquire uma estranha aparência de verdade. A repetição produz familiaridade. E esta, infelizmente, transforma-se em credibilidade.

Curiosamente, a psicologia cognitiva tem demonstrado que a memória humana é muito mais maleável do que gostamos de admitir. Elizabeth Loftus (1944-), investigadora norte-americana conhecida pelos seus estudos sobre falsas memórias, mostrou ao longo de décadas como recordações inteiramente inventadas podem ser incorporadas na mente de uma pessoa. Em determinadas circunstâncias, um indivíduo pode acabar por acreditar sinceramente que presenciou acontecimentos que jamais ocorreram. Tal fenómeno torna-se ainda mais perturbador quando aplicado ao universo visual.

Uma imagem não se limita a informar. Ela insinua-se. Instala-se. Cria uma impressão imediata que frequentemente antecede qualquer reflexão crítica. Mesmo quando descobrimos mais tarde que determinada fotografia era falsa, uma parte da impressão inicial tende a permanecer. Como uma mancha ténue que resiste à lavagem, a imagem continua a habitar algum recanto da memória.

Durante gerações, discutimos a manipulação da informação sobretudo através das palavras. Debatíamos discursos, artigos, livros ou panfletos. Agora entrámos numa era em que a disputa se trava igualmente através de imagens fabricadas em massa. E o olhar, convém lembrá-lo, é uma das portas privilegiadas da crença.

Nem sequer estamos perante um problema exclusivamente político. A tentação é imaginar cenários eleitorais ou campanhas de desinformação. Esses riscos existem, sem dúvida. Porém, a questão alcança uma profundidade maior. A pergunta que se impõe é simples e direta: o que acontecerá aos arquivos familiares?

Pense-se numa criança que, daqui a cinquenta anos, encontre milhares de fotografias digitais dos seus bisavôs. Quantas serão autênticas? Quantas terão sido alteradas? Quantas representarão momentos verdadeiramente vividos? E quantas corresponderão apenas a imagens geradas para diversão, publicidade ou fantasia?

Pela primeira vez na história, aproxima-se a possibilidade de possuirmos enormes arquivos visuais sem qualquer garantia de autenticidade. Este aspecto merece uma acuidada reflexão.

Os álbuns de família sempre desempenharam uma função afetiva. Eram pequenas narrativas da existência. Mostravam casamentos, aniversários, viagens, encontros. Não constituíam apenas coleções de imagens. Eram mecanismos de transmissão da memória entre gerações. Através deles, os mortos continuavam a falar aos vivos, contudo, quando a fronteira entre o vivido e o fabricado se torna indistinta, essa transmissão começa a perder nitidez.

Entretanto, também os historiadores enfrentam desafios inéditos. Durante séculos, desenvolveram métodos rigorosos para analisar documentos, verificar proveniências e identificar falsificações. Nada disso desaparecerá. Pelo contrário, tornar-se-á ainda mais necessário. Contudo, a avalanche de conteúdos digitais ameaça criar um ruído documental sem precedentes.

Imagine-se um investigador do século XXIII a tentar reconstruir acontecimentos do nosso tempo. Encontrará milhares de milhões de imagens. Algumas serão autênticas. Muitas revelar-se-ão difíceis de autenticar. Outras terão sido alteradas parcial ou integralmente. O trabalho de distinguir umas das outras poderá revelar-se extraordinariamente complexo.

Ironicamente, vivemos na época mais obsessivamente documentada da história humana. Nunca produzimos tantas imagens. Nunca registámos tantos momentos. Nunca armazenámos tantos dados. E, ainda assim, estamos a construir uma era particularmente vulnerável ao esquecimento e à confusão. A abundância não garante a preservação da verdade. Pelo contrário, quando o real se mistura com o artificial sem critérios claros de distinção, a própria noção de testemunho começa a vacilar.

Uma biblioteca pode perder-se num incêndio. Uma civilização pode desaparecer devido a uma guerra. Esses perigos acompanham a história desde sempre. Mas uma sociedade pode igualmente perder-se sob uma montanha de documentos contraditórios, onde o verdadeiro e o falso se tornam indistinguíveis.

Jorge Luís Borges (1899-1986), que tanto refletiu sobre labirintos, bibliotecas infinitas e espelhos enganadores, teria provavelmente apreciado esta estranha circunstância. O perigo já não consiste apenas na falta de informação, mas sim no excesso. Num oceano documental tão vasto que a orientação se torna difícil.

Convém, por momentos, suspender a pressa e refletir.

Não devemos rejeitar a inteligência artificial, pois isso seria uma reação ingénua. Como tantas outras tecnologias, ela promete avanços extraordinários na medicina e na ciência. O desafio consiste noutra coisa: preservar mecanismos de verificação, cultivar literacia visual e reforçar instituições capazes de autenticar o passado.

Porque a memória de um povo não é um luxo académico. Constitui, isso sim, uma necessidade fundamental das sociedades livres. Um povo que deixa de distinguir entre o que aconteceu e o que foi inventado acaba por perder algo mais profundo do que simples factos. Despreza a continuidade da sua própria experiência histórica. E sem essa continuidade torna-se difícil compreender quem somos, de onde vimos e para onde desejamos seguir. A questão não é tecnológica. É humana.

Cada geração recebe dos seus antepassados um património invisível composto por lembranças, testemunhos e narrativas. Essa herança nunca foi perfeita. Contém lacunas, erros e interpretações. Ainda assim, representa uma tentativa honesta de transmitir o mundo vivido.

Quando começamos a substituir testemunhos por simulações indistinguíveis da realidade, algo subtil se altera. A fotografia deixa de ser apenas uma janela aberta para o passado e transforma-se, por vezes, num espelho que reflete somente aquilo que gostaríamos de ter visto.

E uma civilização que confunde sistematicamente os espelhos com as janelas corre o risco de deixar de reconhecer a própria história. Este é um dos grandes desafios do nosso século: proteger a memória numa época em que as imagens já não precisam de rememorar nada para parecerem recordações.


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