Portugal
é um país extraordinariamente competente a festejar aquilo que passa. Ergue
palcos, pendura bandeiras, ilumina fachadas, contrata artistas, abre barris,
distribui copos, inventa festivais e, quando a bola entra na baliza certa,
descobre subitamente uma espécie de fraternidade nacional que nenhum tratado
filosófico conseguiria produzir com tanta eficácia. O vinho cumpre a sua antiga
função civilizadora, a cerveja resolve democraticamente certas diferenças de
classe e o futebol, essa liturgia profana dos nossos dias, consegue reunir num
estádio, ou diante de um ecrã, pessoas que, noutras circunstâncias,
dificilmente concordariam sequer sobre o estado do tempo.
Nada
tenho contra isto. Uma cidade precisa de alegria. O que me angustia é a relação
desigual que estabelecemos com o tempo. Para o presente encontramos muito
dinheiro, entusiasmo, cartazes, microfones e fotografias. Para o passado
encontramos, com demasiada frequência, uma cave.
Um
país pode beber o seu vinho, assistir ao futebol e continuar a ser uma
civilização. O drama começa quando consegue financiar com facilidade a
celebração de uma noite e não encontra recursos, vontade política ou imaginação
administrativa para conservar os documentos que permitirão compreender essa
mesma sociedade daqui a cem anos.
Um
arquivo histórico trabalha para pessoas que ainda não nasceram. O seu
destinatário não compra bilhete nem bate palmas. Pode ser um investigador, um
bisneto à procura da profissão do avô, uma família em busca de uma filiação, um
arquiteto interessado num edifício, um município a tentar compreender a
transformação da sua própria cidade.
Não
podemos beber um arquivo histórico. Podemos, através dele, legar aos nossos
descendentes uma memória documental daquilo que fomos.
A
nossa relação com essa memória continua marcada por uma mistura desconcertante
de reverência retórica e negligência prática. Gostamos da História quando ela
já vem arrumada, ilustrada e transformada em narrativa turística. Adoramos
efemérides, centenários, personalidades, monumentos e placas de bronze. O
documento, porém, é outra coisa. Tem rasuras, lacunas, contradições,
caligrafias difíceis e nomes de pessoas que nunca tiveram direito a estátua.
Um
arquivo sério não guarda certezas. Conserva os vestígios a partir dos quais as
certezas podem ser interrogadas. Por isso exige conhecimento especializado. A
documentação histórica não pode ser entregue a quem simplesmente disponha de
boa vontade ou de confiança política. Nas autarquias, a colocação de pessoas
sem formação arquivística em lugares estratégicos pode produzir danos que só
serão percebidos décadas depois. A proveniência, a organização, a conservação e
a descrição dos fundos obedecem a princípios próprios. A boa intenção não
substitui a competência.
Nas
Caldas da Rainha, esta questão assume particular gravidade. A cidade possui uma
história longa e documentalmente rica, mas continua sem um verdadeiro Arquivo
Histórico Municipal que reúna, trate, preserve e disponibilize a memória
documental do concelho. Não se exige uma instituição megalómana. Exige-se um
projeto decente, tecnicamente competente, financeiramente realista e executado
por etapas.
Ainda
existem documentos, fundos, coleções e arquivos familiares que atravessaram
décadas de mudanças, abandonos e incúrias. Mas o tempo não precisa de um
desastre para os atingir. A deterioração é lenta, quase sempre discreta, e vai
tornando mais difícil distinguir aquilo que ainda pode ser recuperado daquilo
que se perdeu sem que ninguém tenha dado por isso. É nessa borda, entre a
sobrevivência e o desaparecimento, que a urgência de preservar se torna mais
evidente.
Seria,
pois, sensato fazer uma pausa na pândega. Não na alegria, nas festas, no vinho,
na cerveja ou no futebol, que também pertencem à vida das cidades. A questão
está noutra parte: saber se somos capazes de dedicar ao que permanece uma
fração da energia que dedicamos ao que é mais fugaz.
Um arquivo histórico é um compromisso entre mortos e vivos, mas também entre os vivos e aqueles que ainda não nasceram. Nas Caldas da Rainha, esse compromisso espera ainda por uma resposta. E cada documento que se salva amplia a possibilidade de que, daqui a muitas décadas, alguém possa encontrar nele uma parte da cidade que existiu.

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