O
Brasil viveu um dia épico a 25 de Outubro de 2026, quando milhões de cidadãos
regressaram às urnas para decidir quem ocuparia o Palácio do Planalto nos
quatro anos seguintes. À superfície, dois candidatos disputavam a Presidência
da República. Sob essa aparência eleitoral, confrontavam-se concepções
profundamente divergentes do poder, da autoridade e da própria liberdade
política.
Luiz
Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, derrotando
Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. A diferença, pouco superior a quatro
milhões de votos, decidiu o resultado.
Não
vejo nesta eleição uma simples disputa entre a Esquerda e a Direita. Essa
classificação, útil para distinguir programas económicos, tradições ideológicas
e diferentes compreensões da sociedade, torna-se insuficiente quando está em
causa a natureza do poder e a possibilidade de o limitar. Na minha leitura, o
Brasil enfrentou uma escolha entre a continuidade da ordem constitucional e a
expansão de uma corrente autoritária, representada politicamente pelo
bolsonarismo, cujas afinidades com o fascismo merecem ser examinadas à luz da
História, e não afastadas por conveniência partidária.
A
palavra fascismo foi tão usada no combate político que, em certas circunstâncias,
parece ter perdido a gravidade que a deveria acompanhar. Aplicá-la a qualquer
adversário conservador, a toda a manifestação nacionalista ou a qualquer
programa de direita seria um erro de análise. O fascismo histórico possui uma
genealogia, uma experiência concreta de poder e características que permitem
distingui-lo de outras formas de autoritarismo. A sua identificação exige, por
isso, critérios reconhecíveis.
O
historiador norte-americano Robert O. Paxton (1932-), no ensaio “The Five
Stages of Fascism”, publicado em 1998, e posteriormente em “The Anatomy of
Fascism” (2004), propôs que o fenómeno fosse estudado através das práticas
políticas, das formas de mobilização e da relação dos movimentos com as
instituições, em vez de se procurar uma definição abstrata, válida para todas
as épocas. Esta perspectiva é especialmente fecunda para compreender movimentos
contemporâneos que não reproduzem integralmente os modelos europeus do período
entre as duas guerras mundiais, mas recuperam elementos fundamentais da sua
cultura política.
Entre
esses princípios encontram-se a exaltação de uma comunidade nacional
supostamente ameaçada, a fabricação de inimigos internos, a idealização de um
passado perdido, a concentração da autoridade numa figura apresentada como
salvadora e a desvalorização dos limites jurídicos quando estes contrariam os
objetivos do movimento. A violência, física ou simbólica, deixa de aparecer
como uma transgressão a evitar e passa a ser tolerada, justificada ou celebrada
em nome de uma missão superior. O pluralismo torna-se suspeito; o adversário é
convertido em inimigo; a força reivindica para si uma legitimidade que já não
reconhece à lei.
É
neste terreno que a análise do bolsonarismo adquire consistência. O cientista
político brasileiro André Singer (1958-), no artigo “Regime autocrático e viés
fascista: um roteiro exploratório”, publicado em 2022 na revista Lua Nova, examinou a evolução
institucional do Governo de Jair Bolsonaro e as técnicas de mobilização que
culminaram, entre outros episódios, nas manifestações de 7 de Setembro de 2021.
A sua análise distingue a tendência autocrática das alterações institucionais
dos métodos de agitação e propaganda utilizados pelo movimento bolsonarista,
que caracteriza como fascistas. A classificação não constitui um consenso
absoluto entre investigadores, mas dispõe de fundamentação académica e não pode
ser descartada como simples insulto partidário.
Os
acontecimentos brasileiros oferecem matéria concreta para esta discussão.
Durante a Presidência de Jair Bolsonaro, as críticas reiteradas ao sistema
electrónico de votação e as alegações de fraude eleitoral sem demonstração
pública suficiente alimentaram a desconfiança em relação à Justiça Eleitoral. A
mobilização de apoiantes contra as instituições, a hostilidade dirigida ao
Supremo Tribunal Federal e a retórica de confronto com os adversários políticos
fizeram parte de um ambiente de crescente tensão institucional. Depois da
derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, os ataques de 8 de Janeiro de 2023,
em Brasília, quando apoiantes do antigo presidente invadiram e vandalizaram as
sedes dos três poderes, revelaram até onde podia chegar a recusa de aceitar os
resultados eleitorais. A responsabilidade individual por atos concretos deve
ser estabelecida judicialmente; a relevância política daqueles acontecimentos,
porém, não depende de qualquer exagero retórico.
O
fascismo não precisa de reproduzir os uniformes de Mussolini (1883-1945) ou as
cerimónias de Nuremberga para merecer exame histórico. A História não regressa
com o mesmo vestuário. Os movimentos políticos adaptam os seus instrumentos às
circunstâncias, apropriam-se das tecnologias disponíveis e aprendem a falar a
língua do seu tempo. A mobilização digital, a circulação sistemática de
informações falsas, a exploração do ressentimento e a apresentação das
instituições como obstáculos à vontade de um povo idealizado podem desempenhar
funções semelhantes às que a propaganda e a agitação desempenharam noutros
contextos históricos.
A
família Bolsonaro tornou-se o núcleo de uma corrente que ultrapassou a
candidatura de Jair Bolsonaro e adquiriu capacidade própria de mobilização
eleitoral. Flávio Bolsonaro herdou uma parte substancial desse capital
político, sustentado por redes de apoio, identidades ideológicas e uma
narrativa de confronto com o sistema político tradicional. O movimento não pode
ser lido apenas através das preferências económicas dos seus eleitores ou das
suas posições perante os costumes. A questão fundamental está na concepção de
autoridade que promove e na maneira como encara os limites impostos pelo Estado
de direito.
Quando
emprego a expressão “família de criminosos”, faço-o como condenação política de
um núcleo familiar que considero associado a práticas e projetos incompatíveis
com os princípios que defendo. A responsabilidade criminal, em sentido
jurídico, exige a identificação de condutas individuais e o respeito pelas
decisões dos tribunais. Não se pode substituir a prova por uma acusação coletiva,
mesmo quando a indignação política parece justificá-la. A crítica ganha força
quando se apoia em factos documentados, processos judiciais e comportamentos
verificáveis, em vez de depender de uma fórmula de efeito.
A
dimensão da votação de Flávio Bolsonaro, que reuniu quase sessenta milhões de
votos, impede qualquer interpretação que considere encerrado o fenómeno. O
bolsonarismo, infelizmente, permanece uma força política expressiva, enraizada
em setores diversos da sociedade brasileira. Seria um erro atribuir a todos os
seus eleitores as mesmas convicções ou presumir que cada voto traduz uma adesão
consciente a um projecto fascista. As motivações eleitorais são múltiplas, e a
análise séria não pode transformar milhões de pessoas numa categoria
indiferenciada. Cabe compreender como se formou esse apoio, que expectativas o
alimentam e de que modo o ressentimento social se converte em mobilização
política.
A
reeleição de Lula constitui, nesta perspectiva, uma decisão de grande
significado histórico. Não lhe atribui uma virtude automática, não apaga as
controvérsias associadas ao seu percurso e não o dispensa de responder perante
os cidadãos. A defesa das instituições não pode transformar-se numa licença
para proteger quem governa, nem a vitória eleitoral deve servir de abrigo à
arrogância. O poder continua sujeito à fiscalização pública, à lei e à crítica,
precisamente porque a sua legitimidade não é ilimitada.
Lula
terá agora de governar um país dividido, negociar com um Congresso onde a
extrema-direita dispõe de uma presença expressiva, responder às necessidades
materiais da população e demonstrar que as instituições conseguem produzir
resultados concretos.
A
experiência europeia do século XX permanece uma advertência, embora não deva
ser transposta mecanicamente para o Brasil. O fascismo cresceu em sociedades
marcadas por crises, humilhações nacionais, conflitos sociais e descrédito das
instituições. Prometeu restaurar a grandeza perdida, purificar a comunidade e
devolver o poder a uma nação que dizia ter sido traída. Para cumprir essa promessa,
identificou inimigos, subordinou direitos individuais a uma suposta vontade
popular e legitimou a violência como instrumento de regeneração. O estudo desse
passado não serve para distribuir rótulos à pressa. Serve para reconhecer a
perigosa transformação do ressentimento em programa de poder.
A
eleição de 25 de Outubro não extingue as condições sociais e políticas que
permitiram a expansão do bolsonarismo. A contagem terminou, mas a disputa em
torno da memória nacional, da autoridade, da Justiça e dos limites do poder
continuará. Os cartazes serão retirados, as sedes de campanha regressarão à
rotina e os discursos da vitória perderão a sua ressonância imediata. Ficarão
os cidadãos, com as suas dificuldades, expectativas e aspirações, e as
instituições, cuja resistência será posta à prova pelas decisões de quem
governa e pela atuação de quem se lhe opõe.
Não
considero, portanto, que o Brasil tenha vivido apenas uma vitória da Esquerda
sobre a Direita. Na minha interpretação, estava em causa a defesa da ordem
constitucional perante uma corrente política que considero autoritária e de
inspiração fascista, cujo percurso e cujas figuras revelaram sinais
suficientemente graves para exigir vigilância histórica e política. Esta
posição não dispensa a demonstração dos factos, nem transforma a minha leitura
numa verdade imune à discussão. Exige, isso sim, que o debate não esconda sob a
neutralidade aparente das classificações partidárias aquilo que verdadeiramente
importa: a relação de cada projeto político com a liberdade, a lei e a
dignidade dos cidadãos.
A
História não absolve os povos por terem votado, nem os condena por terem
escolhido mal. Regista as escolhas, as suas consequências e a responsabilidade
daqueles que, conhecendo os perigos, decidiram enfrentá-los ou ignorá-los. No
Brasil, a urna pronunciou-se. O resultado atribui a Lula a responsabilidade de
governar; à sociedade cabe continuar a exigir que o poder respeite os limites
que tornam legítimo o seu exercício.
Uma
eleição cabe numa percentagem. O destino político de um país, nunca.
A
violência que tantas vezes ocupa o espaço mediático internacional exige também
uma análise que não se limite à disputa entre o Governo Federal e os seus
adversários. No Estado do Rio de Janeiro, a orientação política do Governo
estadual e a da administração municipal da capital são distintas da orientação
do Governo Federal, e as responsabilidades em matéria de segurança pública
distribuem-se por diferentes níveis de poder. Não é rigoroso atribuir toda a
violência a uma única administração, nem absolver antecipadamente qualquer
Governo das responsabilidades que efetivamente lhe cabem. A avaliação deve
considerar competências, decisões concretas, recursos disponíveis e resultados.
Também
as alegações de ligações entre estruturas empresariais, redes suspeitas de
branqueamento de capitais e o financiamento indireto de projetos políticos
exigem prudência. Foram divulgadas acusações relativas a alegados fluxos financeiros
associados ao projeto (bolsonarista) cinematográfico Dark Horse e a entidades
que terão sido relacionadas com estruturas sob investigação por suspeitas de
ligação ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Essas alegações devem ser
investigadas e apreciadas pelas autoridades competentes. A gravidade das
suspeitas não dispensa a prova; pelo contrário, torna-a ainda mais necessária.
Uma coisa é certa: um fascista não seria um fascista se não procurasse
construir o seu exército político, mas a metáfora não pode substituir a
demonstração dos factos.
O
Brasil voltou aos trilhos e está no bom caminho. Lula da Silva é o maior
estadista do planeta. E nós, queridos leitores, somos abençoados por termos o
privilégio de viver na mesma época que esse extraordinário ser humano.

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