A
bordo do navio camarário, a situação começa a adquirir aquela solenidade
própria das grandes catástrofes, sobretudo quando os passageiros ainda discutem
quem deverá ficar com o leme, enquanto a água já lhes chega aos tornozelos. O
casco geme, as ondas entram sem pedir licença e, na ponte de comando,
multiplicam-se reuniões de emergência, mapas e expressões graves. O navio,
esse, continua a afundar-se com uma determinação que seria admirável se não
ameaçasse levar consigo o concelho inteiro.
Os
mais velhos, que já viram muita embarcação partir com música e regressar em
silêncio, recordam o barquinho do PS, cuja carreira terminou há algum tempo,
depois de uma viagem em que a tripulação parecia acreditar que a boa vontade dispensava
os conhecimentos necessários para chegar a bom porto. O episódio merecia
figurar num manual de história política, no capítulo dedicado aos que confundiram
a popularidade do batismo com a resistência do casco. Ficou a lição, ou assim
se julgava. Porque, na política, a memória tem uma particularidade espantosa:
costuma sobreviver aos protagonistas, mas nem sempre chega a tempo de os
aconselhar.
Entretanto,
para evitar que o concelho se transformasse num destroço à deriva, arquitetaram-se
diversos meios de propaganda, todos eles repletos de muita falastrice e pagos a
peso de ouro pelo desgraçado do costume: o povo. Para apimentar as hostes que
se carneiraram em redor do navio, planeou-se uma aliança, mais destinada a
garantir a sobrevivência de carreiras políticas e a manter os cobres em aprumadas
algibeiras do que a salvar o concelho. A operação foi anunciada com a pompa das
grandes reconciliações e a gravidade dos tratados internacionais. Juntaram-se
forças, apertaram-se mãos, distribuíram-se lugares e terá havido quem
imaginasse ouvir, ao longe, os acordes de uma marcha triunfal. O acordo
prometia estabilidade, rumo e salvação. Faltou apenas um pormenor, desses que
os responsáveis costumam considerar essenciais quando já é tarde: verificar se
alguém sabia verdadeiramente governar.
A
tripulação apresenta, com efeito, algumas fragilidades. Não se trata de lhes
negar coragem, muito menos de lhes contestar o entusiasmo, virtudes que
florescem com particular exuberância quando o perigo ainda é uma abstração. O
problema começa quando se exige alguma perícia. O capitão consulta o imediato,
o imediato procura o responsável pelas máquinas, o responsável pelas máquinas
aguarda instruções da chefia e, entretanto, um marinheiro pergunta se a
agitação se deve à oposição. A pergunta provoca uma breve discussão, seguida de
um comunicado “esclarecedor”, redigido com todo o cuidado para que ninguém
fique elucidado em demasia.
Cada
qual parece ter uma concepção muito pessoal do exercício do poder. Uns julgam
que governar consiste em adotar um ar determinado; outros acreditam que os
problemas podem ser resolvidos mediante uma declaração pública. Os mais
imaginativos propõem mudar o nome da embarcação, como se a água respeitasse a
semântica, e há quem defenda a criação de uma comissão para estudar a
inclinação do convés. Paga a peso de ouro, obviamente. Por quem? Pois…
A
aliança que deveria salvar o concelho começa, entretanto, a revelar a sua
verdadeira natureza: uma jangada construída com boas intenções, tábuas de
procedência duvidosa e nós feitos por pessoas que nunca aprenderam a distinguir
uma corda de uma gravata. Cada parceiro trouxe consigo as suas promessas, as
suas ambições e a sua ideia particular do salvamento. Todos querem chegar a
terra com a dignidade intacta, mesmo que para isso seja necessário disputar os
remos, prejudicar o companheiro ou declarar que o desastre, devidamente
interpretado, constitui uma nova modalidade de progresso.
Por
estes dias, a realidade tem-se mostrado pouco sensível aos argumentos da política.
A água salgada não respeita acordos partidários, as ondas não aguardam pela
aprovação de uma ata e a gravidade, essa velha reacionária, continua a exercer
a sua influência sem consultar os órgãos competentes. O navio desce, majestoso
na sua desgraça, enquanto a tripulação procura palavras capazes de desmentir
aquilo que os olhos dos passageiros já perceberam. É uma cena digna de uma
opereta municipal, com libreto de ocasião e uma orquestra que insiste em tocar
durante o naufrágio.
Resta-nos
admirar a perseverança. Afundar-se exige, afinal, uma certa continuidade de
esforço, e nisso a embarcação camarária parece ter encontrado uma competência
rara. O barquinho do PS já pertence ao anedotário político local; o navio atual
aspira, ao que se vê, a uma carreira de outra monta. Se continuar neste ritmo,
não tardará a alcançar profundidades onde nenhum programa eleitoral jamais
chegou.
Os
passageiros começam a procurar coletes. Alguns perguntam pelas baleeiras,
outros procuram saber quem autorizou a viagem e há ainda quem espere que
apareça um rebocador, de preferência antes das próximas eleições. Na ponte de
comando, porém, mantém-se a confiança. O capitão garante que tudo está sob
controlo, embora já não se distinga o convés da linha de água.
E
assim prossegue a viagem, rumo a um destino que ninguém quis anunciar, mas que
o mar parece conhecer perfeitamente. Quando, um dia, alguém perguntar como foi
possível perder uma embarcação construída para servir o concelho, talvez a
resposta surja gravada numa placa de bronze, colocada sobre os restos do casco:
Aqui
jaz um navio que pretendia salvar-se através de um romantismo bacoco. A
tripulação era numerosa, as promessas abundantes e os conhecimentos de
navegação insuficientes.
Nota do autor:
O texto que antecede estas linhas é uma composição ficcional de natureza
humorística e satírica, concebida no exercício da liberdade de criação e ao
abrigo da licença poética. O naufrágio, a embarcação, os seus ocupantes e os
acontecimentos descritos integram uma alegoria literária, construída para
caricaturar comportamentos, expor incongruências e ironizar sobre os mecanismos
da vida política. As figuras e as peripécias aqui evocadas resultam da
imaginação do autor, não constituindo uma descrição factual de pessoas,
instituições ou ocorrências determinadas. A intenção é tão-só recorrer ao humor
e ao exagero próprios da sátira para retratar as fragilidades humanas, as
ambições de poder e as encenações que, por vezes, transformam a promessa de
salvação numa comédia de consequências imprevisíveis.

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