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A manutenção dos muros

Existe um hábito infeliz na vida política contemporânea, o de transformar o adversário numa fronteira moral intransponível. Escutam-se, com demasiada frequência, dirigentes que erguem bandeiras de exclusão e classificam determinados opositores, muitas vezes pertencentes ao próprio espaço partidário, como “linhas vermelhas”, expressão que, repetida até à exaustão, acaba por perder qualquer densidade conceptual e converte-se num simples instrumento de combate retórico.

Uma atitude desta natureza denuncia, quase sempre, uma compreensão empobrecida da própria política. Desde Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), que via na polis o lugar privilegiado da realização humana, até Hannah Arendt (1906-1975), para quem a política encontrava o seu sentido mais elevado na pluralidade e na palavra partilhada, governar nunca significou eliminar a divergência. Pelo contrário, significou aprender a habitá-la. O espaço público nasce precisamente da coexistência entre diferenças, não da sua supressão.

A sociologia política chega a conclusão semelhante. Nenhuma comunidade se mantém coesa através da permanente fabricação de inimigos internos. Quando a identidade coletiva depende exclusivamente da exclusão do outro, o corpo social começa, pouco a pouco, a fragmentar-se. Georg Simmel (1858-1918) observou que o conflito pode desempenhar uma função integradora, desde que permaneça enquadrado por regras comuns e pelo reconhecimento mútuo. Quando deixa de existir essa aceitação mútua, o desacordo deixa de produzir equilíbrio e passa a alimentar a erosão das instituições.

As chamadas “linhas vermelhas”, quando utilizadas como expediente permanente, acabam por revelar menos acerca de quem é colocado para lá do muro do que sobre quem insiste em edificá-lo. Todo o muro possui uma função simbólica: delimita, protege, mas também aprisiona. A história comprova que as civilizações florescem quando constroem pontes de entendimento e começam a definhar quando fazem dos muros a sua principal arquitetura política.

É aqui que se instala o equívoco de muitos protagonistas da vida pública. Confundem firmeza com inflexibilidade, convicção com sectarismo, coerência com incapacidade de dialogar. A política deixa então de ser um exercício de inteligência coletiva para se transformar numa sucessão de fidelidades tribais, onde o adversário deixa de ser um interlocutor legítimo para passar a representar um obstáculo cuja simples existência se pretende negar.

E é aqui, afinal, que encontramos o verdadeiro problema. A política nunca foi concebida para conservar muros. A sua vocação consiste em abrir caminhos onde antes existiam barreiras, encontrar formas de convivência entre interesses divergentes e recordar, incessantemente, que uma democracia madura não se mede pela facilidade do consenso, mas pela capacidade de transformar o conflito em construção comum. Quando os muros passam a ser um objetivo em si mesmos, deixa de haver política no sentido mais nobre do termo. Resta apenas a administração do ressentimento, uma pobreza intelectual que nenhuma sociedade pode tomar por virtude.

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