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A política e o fantasma conveniente

Ontem, durante uma conversa telefónica com uma amiga, fui informado da singular relevância que elementos do meu partido entendem atribuir à minha pessoa. Recebi a notícia com um sorriso difícil de conter. Confesso que nunca imaginei inspirar tamanha inquietação. É reconfortante descobrir que a mera possibilidade de uma hipótese futura consegue provocar tão diligente atividade política (risos).

Segundo me foi relatado, três camaradas têm desenvolvido, mais uma vez, um notável esforço para denegrir a minha imagem junto da turba partidária. A narrativa, cuidadosamente construída, não se limitou ao universo interno da organização. Alargou-se, com apreciável ousadia, ao atual presidente da Câmara Municipal, sustentando que o próprio retiraria o seu apoio ao partido, que, convém não esquecer, nem sequer é aquele pelo qual foi eleito, uma vez que chegou ao cargo através de um movimento de independentes, caso o meu nome viesse, em 2029, a surgir como eventual candidato à presidência da autarquia.

Perante semelhante enredo, a minha reação só poderia ser uma gargalhada franca. Respondi que, quando esse ano chegar, alimento a esperança de me encontrar ocupado com tarefas muito mais agradáveis, frequentar exposições, assistir a concertos, visitar bibliotecas, caminhar junto ao mar, disputar algumas partidas de tênis e brindar o verão com valentes limonadas.

A política possui uma imaginação que faz inveja aos melhores romancistas. Há quem consiga transformar uma hipótese nunca anunciada numa ameaça iminente, uma ausência numa presença constante, um silêncio numa declaração de intenções. É uma capacidade singular. A realidade deixa de ser suficiente; torna-se indispensável fabricar espectros para justificar receios que dificilmente encontrariam fundamento nos acontecimentos.

Não escondo um certo fascínio por este fenómeno. Descobri, sem qualquer esforço da minha parte, que posso participar no debate político sem abrir a boca, influenciar estratégias sem reunir com ninguém e suscitar apreensões apenas pela possibilidade, remota ou imaginada, de um dia vir a tomar uma decisão. Poucos privilégios serão tão expressivos quanto este, o de existir politicamente apenas na imaginação dos outros.

Entretanto, ocorre-me uma reflexão que ultrapassa o episódio em si. Quando uma organização começa a dedicar uma parte apreciável da sua energia ao combate de hipóteses, em vez de concentrar o seu talento na resolução dos problemas concretos da comunidade, corre o risco de substituir a política pela intriga e o serviço público pela administração dos receios. A História, sempre paciente nestas matérias, mostra-nos que as instituições enfraquecem menos por força dos seus adversários do que pela incapacidade de distinguir o essencial do acessório.

Fico, por isso, sinceramente agradecido a esses camaradas. Sem o desejarem, ofereceram-me um elogio involuntário. Afinal, não é todos os dias que alguém descobre possuir a capacidade de inquietar consciências sem discursar, de alterar cálculos sem apresentar candidaturas e de inspirar receios apenas porque alguns decidiram atribuir-lhe um papel que ele próprio não tem interesse em reivindicar.

Quanto a mim, mantenho as minhas prioridades. Continuo a acreditar que um dia inteiro junto ao oceano, uma boa conversa entre amigos e uma limonada fresca constituem um programa infinitamente mais saudável do que qualquer conspiração de corredor. A política passa. As estações sucedem-se. O mar, esse, conserva uma serenidade que muitos aparelhos partidários fariam bem em aprender.

Resta-me formular um voto sincero. Os meus camaradas fariam melhor uso das horas do dia se as consagrassem ao estudo. A leitura, a reflexão e o conhecimento sempre foram antídotos mais eficazes contra o medo do que a intriga. Estou convencido de que muitos dos problemas que hoje perturbam a vida partidária desapareceriam por si mesmos se o estudo, a reflexão e a cultura ocupassem o lugar que, desde sempre, lhes pertence na formação dos homens públicos.

Comentários

Anónimo disse…
Força Rui.
O PSD precisa de ti.

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