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Acima da consciência

O humanismo recolocou o homem no centro da reflexão. Não para o coroar senhor do mundo, mas para lhe recordar a responsabilidade que decorre da sua liberdade. A diferença é profunda. Durante séculos confundimos dignidade com domínio, inteligência com posse, progresso com acumulação. Pagamos agora o preço dessa antiga ilusão. O ar tornou-se mais pesado, as paisagens perderam silêncio, até a linguagem parece respirar com dificuldade. Não foi apenas a natureza que empobrecemos, foi também a forma de olhar o semelhante, como se cada rosto deixasse de ser um mistério para valer apenas pela utilidade que oferece.

Esse empobrecimento não começou nas fábricas nem nas grandes cidades. Instalou-se muito antes, na intimidade da consciência. As civilizações degradam-se primeiro por dentro, quase não damos por isso. É um desgaste sem estrondo, semelhante ao labor persistente da água sobre a rocha, invisível durante anos, irreversível quando finalmente se manifesta.

Vivemos convencidos de que os grandes problemas pertencem aos governos, às instituições ou às gerações futuras. É um equívoco antigo. Nenhuma época se perdeu por lhe faltarem leis. Muitas desapareceram porque lhes faltaram homens capazes de lhes dar um espírito. Roma começou a declinar muito antes das suas muralhas se tornarem vulneráveis. O mesmo sucedeu com tantas outras culturas. A decadência instala-se primeiro na linguagem, depois nos costumes, por fim nas obras. O que se vê limita-se a denunciar uma erosão que já vinha de dentro.

Existe um instante, quase sempre silencioso, em que o homem deixa de perguntar o que lhe é permitido fazer e começa a interrogar-se sobre aquilo que merece realizar. A distância entre uma pergunta e outra mede, creio, uma parte significativa da história da civilização. A consciência estabelece limites. Existe, porém, uma região mais elevada, menos evidente, onde já não basta distinguir o bem do mal. Exige-se uma disposição permanente para escolher o bem, mesmo quando ninguém o reclama, mesmo quando daí não resulta qualquer vantagem.

Ninguém melhora verdadeiramente o mundo enquanto não aprender a governar a própria desordem interior. Parece uma evidência, embora seja das menos praticadas. Exigimos reformas, reclamamos justiça, desejamos sociedades mais equilibradas, mas a impaciência continua a orientar os nossos gestos mais simples. A palavra precipita-se antes da reflexão. O julgamento chega antes da escuta. Depois admiramo-nos da aspereza do tempo em que vivemos.

Não aludo à pureza ingénua, essa que ignora o conflito porque nunca o encontrou. Refiro-me a outra, muito mais exigente, conquistada à custa de combate interior. A alma depura-se quando resiste à tentação do ressentimento, quando recusa fazer da amargura um princípio de vida, quando conserva a capacidade de admirar apesar da fadiga. A inocência desconhece o confronto. A alma verdadeiramente pura atravessou-o e recusou permitir que a sombra se transformasse em morada.

Os antigos compreenderam esta realidade com uma clareza que a nossa época parece ter trocado pela eficácia. Para Platão, educar consistia em orientar a alma para a luz. Os estóicos procuravam a liberdade onde ninguém podia confiscá-la. Os monges do deserto deram a essa luta interior uma linguagem espiritual que ainda hoje impressiona pela sua lucidez. O Renascimento recuperou essa herança ao recordar que toda a inteligência transporta consigo uma obrigação moral. Erasmo nunca confundiu saber com sabedoria. Montaigne, nos Ensaios, preferiu conhecer o homem a classificá-lo. Agostinho da Silva regressou incessantemente à ideia de que educar não significa fabricar especialistas, mas despertar consciências livres.

Entretanto, o planeta envia sinais que dispensam tradução. O ar perde transparência. Os rios transportam aquilo que não lhes pertence. As florestas diminuem, como se a própria Terra respirasse com dificuldade. Julgamos tratar-se apenas de uma crise ambiental. Inclino-me para outra leitura. A natureza reflete, com uma fidelidade quase cruel, a qualidade da nossa vida interior. Quem aprende a devastar a própria consciência dificilmente hesitará antes de destruir uma paisagem.

Respirar constitui o mais elementar dos atos. Nunca pensamos nisso até ao momento em que o ar escasseia. Também a convivência humana possui uma atmosfera invisível. Alimenta-se da honestidade, da palavra dada, da cortesia, da compaixão e do reconhecimento de que nenhuma pessoa pode ser reduzida à sua utilidade. Quando esse clima moral se deteriora, nenhuma prosperidade consegue compensar a asfixia que lentamente se instala.

Gosto de pensar que cada gesto íntegro purifica discretamente esse ar invisível. Não altera de imediato o rumo da História, nem elimina a injustiça ou o sofrimento. Ainda assim, impede que a degradação se torne absoluta. Uma consciência recta possui uma curiosa capacidade de irradiar ordem. Não faz ruído nem exige recompensa. Permanece fiel ao bem quando ninguém observa.

Vejo, por vezes, uma contradição difícil de ignorar. Multiplicam-se campanhas em defesa da natureza, e isso merece reconhecimento. Em contrapartida, quase deixámos de falar da ecologia da alma. A expressão poderá parecer antiga. Não perdeu, contudo, a sua força. Um espírito contaminado pela vaidade, pela violência ou pela indiferença acaba por produzir um mundo à sua imagem. Nenhuma tecnologia consegue corrigir semelhante deformação.

Tudo o resto nasce daí. Também o respeito pelas florestas. Também o cuidado pelos rios. Também a qualidade do ar que deixaremos aos nossos filhos e netos. O planeta não precisa apenas de máquinas mais inteligentes ou de soluções mais sofisticadas. Precisa de consciências menos empobrecidas, de caráter mais firme, de seres humanos capazes de compreender que cuidar da Terra e do semelhante pertence ao mesmo dever.

A esperança reside rigorosamente nessa lenta formação do caráter. É uma obra discreta. Não produz manchetes nem alimenta estatísticas. Desenvolve-se na intimidade da consciência, ou, melhor dizendo, acima dela, nesse lugar onde o dever deixa de ser uma imposição para se transformar numa forma de amor. Acredito que será aí que o futuro começará verdadeiramente. Quando respirarmos um ar mais limpo porque teremos aprendido, antes disso, a purificar as intenções. Quando a força deixar de significar domínio e passar a significar retidão. Nesse dia, sem proclamações grandiosas, o humanismo voltará a ser menos uma doutrina do que uma maneira de habitar o mundo.

 

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