É
sempre motivo de satisfação verificar que cidadãos se interessam pela vida da
sua freguesia ou da sua cidade. Uma comunidade fortalece-se quando os seus
habitantes participam no debate público, apresentam propostas, questionam decisões
e procuram contribuir para o bem comum. A democracia alimenta-se dessa
pluralidade de vozes e empobrece sempre que prevalecem o silêncio ou a
indiferença.
Ainda
assim, existe uma realidade que merece reflexão. Nos últimos tempos tenho
acompanhado, sobretudo através das redes sociais, a divulgação de ideias e
projetos destinados à freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da
Rainha. Muitas dessas propostas são apresentadas como se fossem inéditas. Na
verdade, não são.
Entre
2017 e 2021, durante os trabalhos da Assembleia de Freguesia, uma parte muito
significativa dessas iniciativas foi amplamente debatida. Algumas deram origem
a recomendações, outras foram objeto de propostas formais, várias suscitaram
discussões prolongadas. Nem todas reuniram consenso, como é natural em qualquer
órgão deliberativo. Ainda assim, quase todas passaram pelo escrutínio
democrático. O problema encontra-se noutro lugar: a memória dessas reuniões
praticamente desapareceu do espaço público.
Quem
nunca assistiu a uma sessão da Assembleia de Freguesia dificilmente imaginará a
quantidade de ideias, projetos e preocupações que ali foram apresentados. A
perceção que hoje subsiste é, por isso, inevitavelmente incompleta. Uma parte
desse trabalho chegou ao conhecimento da população através dos artigos de
opinião que publiquei durante o mandato, nos quais dei conta das propostas,
recomendações e intervenções que apresentei em plenário. Tudo o resto
permaneceu, em larga medida, circunscrito às atas das reuniões, documentos que
poucos cidadãos consultam. Uma democracia não pode depender apenas dos seus
arquivos para preservar a memória daquilo que discutiu, propôs e decidiu.
A
imprensa local desempenha, neste domínio, uma responsabilidade que ultrapassa a
simples divulgação de acontecimentos. Compete-lhe acompanhar, interpretar e
preservar a memória da atividade dos órgãos autárquicos. Durante os quatro anos
em que exerci funções na Assembleia de Freguesia, os jornais locais limitaram a
sua presença à cerimónia de tomada de posse dos eleitos. Depois disso, as
sessões decorreram praticamente sem cobertura jornalística. Debates,
recomendações, propostas e intervenções desapareceram, quase sempre, no
silêncio.
Esse
vazio tem consequências. Passados poucos anos, ideias discutidas publicamente
regressam ao debate como se acabassem de nascer. Não por falta de mérito de
quem agora as apresenta, mas porque a memória coletiva foi deixando escapar um
património de reflexão que deveria permanecer acessível a todos. Quando a
informação não circula, a própria democracia perde continuidade.
Seria
cómodo concluir que esta realidade constitui uma particularidade de Caldas da
Rainha. Não constitui. O meu quotidiano decorre, sobretudo, em Lisboa e é
precisamente aí que passo a maior parte do meu tempo. Também na capital observo
o mesmo fenómeno: propostas debatidas anos antes regressam ciclicamente ao
espaço público como se fossem absolutamente novas, enquanto muito do trabalho
desenvolvido pelas instituições permanece praticamente desconhecido da população.
A fragilidade da memória pública não é um problema local. É uma debilidade que
atravessa o país e que empobrece a qualidade da nossa vida democrática.
Não
escrevo estas linhas para reclamar qualquer protagonismo pessoal. As ideias
pertencem menos a quem as formula do que à comunidade que delas beneficia. O
que verdadeiramente importa é que o trabalho desenvolvido nas instituições não
se perca na sucessão dos mandatos nem fique encerrado entre as paredes das
salas onde decorrem as reuniões.
As
instituições democráticas vivem das decisões que tomam, mas também da memória
que conseguem preservar. Quando essa memória se dissolve, perde-se muito mais
do que o registo de um debate ou de uma proposta. Perde-se a continuidade da
própria democracia. Quando uma comunidade deixa de reconhecer o seu próprio
percurso, perde também a capacidade de distinguir a verdadeira novidade da
simples repetição. E é nesse instante que o passado, esquecido, regressa
disfarçado de descoberta.

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