Há
qualquer coisa de desconcertante, diria mesmo metafísico, na forma como o mal
se insinua na história humana. Não entra de rompante, não se anuncia com
trombetas, antes se instala devagar, como uma ideia que, repetida o suficiente,
acaba por parecer razoável. E talvez seja esse o seu maior triunfo, não a
violência em si, mas a capacidade de se normalizar.
O
século XX ofereceu-nos figuras que se tornaram, queira-se ou não, arquétipos
sombrios. Adolf Hitler (1889-1945), Benito Mussolini (1883-1945) e Francisco
Franco (1892-1975) não foram apenas homens com poder, foram encarnações de uma
ideia mais vasta, a crença de que a ordem pode nascer da exclusão, de que a
unidade exige silêncio, de que o diferente é, por definição, um problema a
resolver. É curioso, ou talvez inquietante, como essas premissas, apesar de tão
flagrantemente desastrosas, reaparecem com uma regularidade quase teimosa.
Hannah
Arendt (1906-1975), ao falar da banalidade do mal, sugeria algo profundamente
incómodo, que o mal não precisa de monstros excepcionais para se manifestar,
basta-lhe a ausência de reflexão, o automatismo das convicções e a obediência
sem interrogação. E, pensando bem, há uma espécie de economia nisso, o mal,
para prosperar, não exige génio, apenas adesão.
Quando
olhamos para figuras contemporâneas como Donald Trump, Jair Bolsonaro, André
Ventura ou Giorgia Meloni, não estamos perante repetições exatas do passado,
seria simplista dizê-lo. E, ainda assim, há ali qualquer coisa que ressoa, não
sei bem como dizer, a uma familiaridade incómoda. Como se certas ideias nunca
tivessem ido embora, ficassem apenas em suspenso, à espera do momento certo
para regressar, com outro tom, outras palavras.
E
depois há os movimentos, quase como correntes subterrâneas, que alimentam esse
regresso. O Aurora Dourada, a CasaPound, e tantos outros agrupamentos
espalhados pela Europa, do Leste ao Norte, da Holanda à Dinamarca, parecem
funcionar como reservatórios de uma memória seletiva, onde se guardam não os
horrores do passado, mas as suas promessas ilusórias.
Talvez
o erro esteja na forma como concebemos o mal, como algo externo, quase
alienígena, quando, na verdade, ele parece brotar de dentro, das nossas
fragilidades coletivas, do medo, da insegurança, dessa vontade antiga de
simplificar o mundo dividindo-o entre “nós” e “eles”. É uma tentação primitiva,
e, por isso mesmo, persistente.
Há
uma ironia amarga nisto tudo. Enquanto celebramos o progresso, a ciência, a
interligação global, continuamos vulneráveis a narrativas que reduzem, que
fecham, que empobrecem o humano. Como se avançássemos em linha reta num plano
técnico, mas em círculos na esfera moral.
E
assim, entre avanços e recaídas, vamos habitando esta estranha condição,
conscientes, pelo menos em teoria, dos erros cometidos, mas nunca totalmente
imunes à sua repetição. Talvez porque, no fundo, o mal não seja um acidente da
história, mas uma possibilidade constante, à espera, silenciosa, de ser
novamente escolhida.
Dar
palco a este tipo de figuras, ainda que sob o pretexto da pluralidade ou de uma
certa ideia de debate aberto, acaba, muitas vezes, por ter um efeito mais
profundo, e mais corrosivo, do que se admite à primeira vista. Porque não se
trata apenas de opiniões divergentes, disso sempre viveu a vida pública,
trata-se, isso sim, de discursos que lentamente vão deslocando o limite do
aceitável, tornando banal aquilo que, noutro tempo, nos pareceria impensável. E
o mais inquietante é isto, quase sem darmos por isso, começa a insinuar-se a
ideia de que odiar o outro, o vizinho, o desconhecido, pode ser legítimo, ou
pelo menos compreensível. Ora, se há coisa que devia permanecer fora de
discussão é precisamente essa, a possibilidade de transformar o outro num alvo,
numa ameaça, numa caricatura. É um empobrecimento do humano, seco, áspero, que
nos reduz a versões menores de nós próprios.
E
depois há a questão do tempo, que raramente entra nestas conversas, mas talvez
devesse. Aquilo a que hoje chamamos Portugal nem sempre existiu assim, nem com
estas fronteiras, nem com esta identidade, e nada garante, convenhamos, que
daqui a quinhentos anos continue a existir da mesma forma. A história é móvel,
instável, quase caprichosa. Por isso, essa obsessão em traçar linhas rígidas,
em separar, em excluir, parece, no mínimo, ingénua. No fundo, partilhamos muito
mais do que aquilo que nos distingue, apesar da cor da pele, da religião, do
clube de futebol, dessas pertenças que tantas vezes tomamos por absolutas.
Somos, no essencial, feitos da mesma matéria frágil e passageira. Talvez por
isso fizesse mais sentido somar, acrescentar, alargar, em vez de dividir, como
se o mundo fosse um jogo de soma nula. Mas, enfim, isso exigiria uma lucidez
que nem sempre está disponível.
Liberdade,
igualdade e fraternidade, sempre.
Essas
figuras que hoje gravitam em torno de discursos de tonalidade fascizante
invocam, com frequência, o nome de Deus como quem ergue uma certeza, quase um
abrigo moral. E, no entanto, fica sempre a dúvida, que Deus é esse que serve
tão bem a exclusão e tão mal a misericórdia? Não o que eu reconheço, pelo menos
não esse. O meu, se é que posso dizê-lo assim, não se compraz na violência nem
se alimenta do afastamento do outro, antes se revela, de forma discreta, na
bondade que não faz distinções apressadas. E é aqui que tudo se torna estranho,
quase desconcertante, porque o mesmo nome é usado para abrir e para fechar o
mundo, para aproximar e para expulsar. Talvez por isso me seja impossível
reconhecer-me nesse uso, nesse desvio do sentido, nesse espelho que devolve uma
imagem que não é humana o suficiente para me conter.
Talvez,
no fim de tudo, a grande linha que nos separa não seja entre nações, ideologias
ou pertenças, mas entre a capacidade de reconhecer o outro como igual e a
tentação persistente de o transformar em obstáculo. E essa escolha, silenciosa,
quase diária, é talvez onde a história verdadeiramente acontece.

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