Existe
algo de profundamente revelador no ridículo, não enquanto desvio episódico, mas
como categoria quase filosófica, discreta, persistente, insinuando-se onde
menos se espera. Dir-se-ia, aliás, que o burlesco não é o contrário da
seriedade, é, isso sim, a sua caricatura involuntária, o seu espelho deformado,
onde a intenção se perde e sobra apenas uma espécie de eco deslocado.
E
então, inevitavelmente, regressamos à alface. Não a hortícola, humilde,
destinada ao prato, mas essa outra, transfigurada em indumentária comemorativa,
erguida com surpreendente convicção num contexto que pede memória, densidade,
até um certo silêncio interior. A Revolução dos Cravos, convenhamos, não se
deve prestar a metáforas botânicas de ocasião. Há a flor, é certo, e nela cabe
uma ideia inteira de ruptura sem violência, uma estética mínima, quase
ascética. A alface, pelo contrário, parece já pertencer a outro domínio, o da
proliferação gratuita, da abundância sem centro, da forma que não encontra
conteúdo. Mas avancemos um pouco mais, porque há aqui uma subtileza deliciosa,
quase irresistível.
O
verdadeiro fulgor do ridículo não está apenas em vestir-se de alface. Isso, por
si só, seria apenas um episódio carnavalesco deslocado, um erro de calendário,
nada de particularmente memorável. O que, no fundo, acaba por elevar o gesto a
uma espécie de criação involuntária é esse pormenor quase revelador: por vezes,
quem o protagoniza surge investida, por decisão alheia, na “pasta” da cultura,
como quem recebe um título sem vocação. Não na condição de criadora, note-se,
mas antes como um obstáculo persistente, desses que não produzem, apenas
ocupam. E é precisamente aqui que a ironia se adensa, ganha relevo, quase pede
contemplação.
Imaginemos,
sem grande esforço, a figura: percorre exposições com ar entendido, cita
autores como quem executa um passo ensaiado, discorre, investida de autoridade
circunstancial, sobre alegadas camadas de leitura (conceda-se a dúvida, ainda
que generosa) e, no entanto, ali permanece, envolta em folhas verdes, a
celebrar um momento fundador com a gravidade ornamental de uma salada
meticulosamente disposta. Há qualquer coisa de extraordinário neste
desfasamento.
Não
se trata já de ignorância, o que seria, paradoxalmente, mais simples, mais
honesto até. Trata-se de uma espécie de excesso de mediação, tudo passa pelo
filtro da interpretação, da reinterpretação, da reconfiguração simbólica, até
que o símbolo, exausto, colapsa. A alface surge então como um signo libertado
de qualquer ancoragem, flutuante, disponível para alguma leitura, ou, o que é
mais provável, para nenhuma.
Talvez
Jean Baudrillard (1929-2007) sorrisse, com aquele gosto pelo simulacro levado
ao extremo. Aqui não há já referência, apenas circulação de signos, uma festa
de significantes onde o sentido foi discretamente dispensado. A alface não
representa nada e, precisamente por isso, pode fingir representar tudo. E, no
entanto, há um pequeno ruído que não desaparece.
Porque
o ridículo, quando se aproxima demasiado da auto-consciência, ganha uma
espessura incómoda. Já não é apenas aquilo que se vê de fora, é aquilo que, de
algum modo, insiste em revelar uma fissura interior. O “intelectual” folhoso,
permito-me a expressão, não está apenas a brincar com os códigos. Está, talvez
sem o querer, a expor o ponto em que o jogo se torna excessivo, onde a ironia
se dobra sobre si mesma e perde o pé. Aqui a realidade, sempre menos paciente
do que a teoria, se insinua.
A
figura em questão, dotada de um porte que não se pode ignorar, uma presença
ampla, quase escultórica, ocupa na via pública um espaço digno de nota. Não por
ostentação deliberada, suspeito, mas por uma conjugação infeliz entre volume e
convicção estética. A alface, expansiva por natureza, encontra no corpo que a
sustenta uma espécie de aliado estrutural, multiplicando-se, alargando-se,
insinuando-se no espaço urbano com uma confiança quase institucional. Dir-se-ia,
com alguma prudência, que há aqui um problema de ordem prática.
Porque
a cor, esse verde vivo, vibrante, quase fluorescente em certas luzes, não é
neutra. Interfere. Convoca reações. Num cruzamento mais distraído, sob o olhar
apressado de um condutor menos preparado para encontros filosófico-botânicos, a
aparição súbita de uma alface de dimensões generosas pode, sem grande esforço,
provocar uma hesitação, um sobressalto, quem sabe até uma travagem brusca. Não
por maldade, entenda-se, mas por puro espanto ontológico. E, neste ponto, o
ridículo ganha uma nova camada, quase cívica.
Já
não é apenas uma questão de gosto, ou da sua flagrante ausência, é uma
interferência concreta no fluxo do mundo, uma perturbação leve mas real da
ordem diária. A estética transforma-se, inadvertidamente, em risco. O símbolo,
outrora esvaziado, adquire subitamente consequências, ainda que mínimas, ainda
que apenas plausíveis, mas nem por isso menos sugestivas.
Talvez
Soren Kierkegaard (1813-1855), com a sua habitual subtileza, identificasse aqui
uma forma curiosa de desespero, não o dramático, mas o que se manifesta na
desproporção entre o gesto e o seu alcance. Ou talvez Henri Bergson (1859-1941)
visse, uma vez mais, o mecânico infiltrado no vivo, a repetição sem
consciência, agora com ligeiras implicações rodoviárias. E nós, espectadores
involuntários, permanecemos ali, entre o riso contido e uma cautela algo
perplexa, como quem não sabe bem se assiste a um equívoco ou a uma estratégia. Porque,
vistas bem as coisas, aquilo que parecia uma escolha estética duvidosa acaba
por se desdobrar, com uma eficácia quase desconcertante, numa alegoria muito
contemporânea.
Nada,
afinal, terá sido deixado ao acaso. A exuberância do verde, a volumetria
insistente, a presença que se impõe, tudo parece conspirar para um desfecho
bastante claro, ainda que raramente confessado: garantir um destaque que
ultrapasse, com folga, a própria comemoração da Revolução dos Cravos.
Verde.
Dominante. Inevitável.
E,
no fundo, talvez esse tenha sido o verdadeiro programa estético, não celebrar a
memória, mas eclipsá-la, com uma folha bem colocada no meio de todos os
festejos.

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