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Júlia Cortines


Maria Júlia Cortines Laxe, nascida em Rio Bonito a 12 de dezembro de 1868 e falecida no Rio de Janeiro a 2 de abril de 1948, ocupa um lugar singular, embora discreto, mas não despido de significado, na história literária brasileira. Poeta, cronista e professora, de formação exigente e sensibilidade complexa, foi associada à escola Parnasiana, uma das mais elevadas e estruturantes correntes estéticas da tradição literária, responsável por elevar o verso a um patamar de rigor técnico, disciplina formal e depuração estética raramente alcançados, embora a sua escrita revele nuances que excedem, com subtileza, os limites mais rígidos dessa corrente.

Filha de João Batista Cortines Laxe (1830-1875), jornalista e homem público, e de Júlia Pereira de Mesquita Cortines Laxe (1840-1869), cresceu num ambiente culturalmente favorecido, repartindo a sua formação entre a terra natal, Niterói e a então capital. Mas não é só isso, há sempre qualquer coisa que escapa aos registos formais: uma infância atravessada por livros, por vozes que não ficaram documentadas, por leituras feitas talvez ao acaso, como quem apanha fragmentos de mundo sem ainda saber bem o que fazer com eles.

Ainda assim, a sua educação não se esgotou no ensino formal, foi, em larga medida, autodidata. Lia com uma espécie de fome calma, sem programa fixo, pegando no que lhe chegava às mãos e deixando que os textos fizessem o seu trabalho silencioso. Um percurso que se construiu mais por inclinação interior do que por disciplina externa, e isso nota-se, de algum modo, na forma como a escrita parece nascer dela, sem esforço visível, como se já estivesse à espera.

Há, nesse traço, qualquer coisa de revelador, uma inteligência que se forma por contato direto com os textos, sem intermediações excessivas. Quase uma aprendizagem solitária, mas não pobre, antes intensa, concentrada, com aquele tipo de atenção que não se aprende em sala de aula.

A precocidade é evidente. Aos treze anos escreve os primeiros versos; e não são apenas exercícios juvenis, são tentativas sérias de dar forma ao que ainda não tinha nome. Aos vinte e um, já colabora ativamente na imprensa, publicando em periódicos diversos. Não se trata apenas de um início promissor, mas de uma efetiva inserção no meio literário, num tempo em que, infelizmente, tal espaço permanecia, em grande medida, vedado às mulheres, e isso, convém não esquecer, altera tudo: o ritmo, o esforço, a própria forma de presença.

Em paralelo à sua atividade literária, construiu uma carreira extensa no magistério. E aqui há uma imagem que quase se impõe, a de alguém que ensina enquanto também escreve, como se uma coisa alimentasse a outra, sem fronteiras rígidas. Dedicou-se ao ensino de sucessivas gerações que viriam, elas próprias, a deixar marca significativa no panorama cultural brasileiro. Este elemento, que à primeira vista poderia parecer acessório ou circunstancial, ganha outra espessura quando examinado com atenção, sugere uma influência discreta, persistente, de longa duração, que não faz ruído, mas se infiltra lentamente, ultrapassando a literatura e chegando à formação de outras vozes, outras ideias e outras vidas.

Publicou dois volumes, Versos (1894) e Vibrações (1905). E é precisamente neste segundo título que se deixa entrever uma inflexão significativa. Vibrações, palavra que convoca movimento, ressonância e instabilidade, parece insinuar, desde logo, uma tensão com o ideário parnasiano mais ortodoxo, assente na fixidez formal e na contenção expressiva.

Se Olavo Bilac (1865-1918) representa o apogeu de uma das mais sublimes realizações da poesia em língua portuguesa, elevando o Parnasianismo a um grau de perfeição formal quase inigualável, com um verso depurado até ao limite da lapidação, e Alberto de Oliveira (1857-1937) encarna a objetividade rigorosa, quase escultórica, da linguagem, ambos figuras tutelares de uma escola que soube transformar a poesia em arte de altíssimo refinamento técnico e beleza estrutural, já Emílio de Menezes (1866-1918) introduz uma tonalidade irónica, por vezes corrosiva, que abre pequenas fissuras no sistema, sem contudo o diminuir, antes o enriquecendo pela complexidade.

É, porém, com Martins Fontes (1884-1937) que se torna mais perceptível uma deriva em direção a um lirismo menos constrangido, mais permeável à emoção, ainda que sem ruptura ostensiva. E é precisamente nesse intervalo, entre a disciplina formal e a vibração interior, que Júlia Cortines se inscreve com maior nitidez.

A sua poesia respeita o molde, mas não se deixa aprisionar por ele. Há uma insistência temática na dor, na transitoriedade da vida, na fragilidade da esperança, que percorre os seus versos com uma persistência quase silenciosa. Não se trata de um sentimentalismo fácil, mas de uma inquietação mais funda, por vezes próxima de uma interrogação existencial.

A apreciação crítica de José Veríssimo (1857-1916), ao afastar a sua obra da trivialidade decorativa, a célebre “água-de-cheiro”, confirma essa leitura. Reconhece-se nela uma densidade que não se esgota na superfície formal, um esforço de conciliar o rigor da construção com uma vibração íntima que resiste à domesticação plena.

Em 1939, foi homenageada pela Academia Fluminense de Letras, gesto de reconhecimento que, embora relevante, não assegurou a sua fixação duradoura no cânone mais visível. Posteriormente, a Academia Brasileira de Letras reuniu a sua obra num volume acessível, tentativa meritória de resgate.

E, no entanto, e aqui impõe-se uma nota inevitavelmente melancólica, Júlia Cortines permanece hoje amplamente esquecida. A sua obra desapareceu quase por completo das livrarias, afastada do circuito editorial corrente, sobrevivendo sobretudo em edições institucionais e arquivos digitais. Falta-lhe essa presença viva, tangível, que permite a um autor continuar a dialogar com o presente.

Talvez resida aí o seu destino mais paradoxal. Não pertence ao centro canónico, mas também não se dissolve na obscuridade absoluta. Permanece numa zona de limiar, onde a literatura, por vezes, revela as suas inflexões mais subtis.

Entre o cinzel e a inquietação, entre a forma e o frémito, a poesia de Júlia Cortines continua, embora discreta e quase velada, a vibrar.

 

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