Há
cidades que se visitam. E há outras que se percorrem como quem lê, devagar,
quase com receio de saltar uma linha. Madrid, sobretudo na zona do Paseo del Prado, pertence claramente a
esta segunda categoria. Não é apenas um conjunto de museus, é uma espécie de
narrativa contínua, onde cada sala parece responder, ainda que em surdina, à
anterior.
Começa-se,
inevitavelmente, pelo Museo Nacional del Prado.
E “começar” talvez nem seja a palavra mais justa, entra-se ali como quem
atravessa um limiar. Há qualquer coisa de quase solene naquele espaço, mas sem
rigidez. As obras estão lá, sim, mas não como relíquias distantes. Olham-nos.
Interpelam-nos, às vezes com uma estranha familiaridade.
Diante
de As Meninas, de Diego Velázquez
(1599-1660), por exemplo, há sempre um momento de suspensão. Não é apenas a técnica,
nem sequer a composição, é aquela sensação difícil de explicar de estarmos
dentro da pintura sem sabermos exatamente onde nos colocamos. E depois
Francisco de Goya (1746-1828), inevitável, com as suas sombras, os seus
excessos, aquela lucidez quase incómoda. Madrid, percebe-se ali, não é uma
cidade ingénua.
Mas
o percurso não fica preso ao passado. Avança-se, a pé, de preferência, porque
há coisas que só se entendem andando, até ao Museu Thyssen-Bornemisza. Aqui, a experiência muda de tom. Se o
Prado é densidade histórica, o Thyssen é continuidade. As salas sucedem-se como
uma linha do tempo visível, do Renascimento às vanguardas, quase sem rupturas
abruptas.
E
é curioso, porque ali sentimos algo diferente. Não se trata apenas de
contemplação, há uma espécie de reconhecimento progressivo. Jan van Eyck
(1390-1441), Albrecht Dürer (1471-1528), depois Caravaggio (1571-1610) e, mais
adiante, Pablo Picasso (1881-1973) ou Edward Hopper (1882-1967). Como se a
história da arte deixasse de ser abstrata e passasse a ser quase palpável,
organizada, sim, mas nunca totalmente previsível.
E
então chega-se ao Museu Reina Sofía.
E aqui, inevitavelmente, tudo abranda.
Não
por falta de obras, pelo contrário, mas porque há uma que domina o espaço de
forma quase absoluta: Guernica. Não é
apenas um quadro de Pablo Picasso, é uma espécie de testemunho condensado.
Diante dele, o tempo parece reorganizar-se. Já não estamos a ver arte no
sentido clássico, estamos a confrontar-nos com uma ferida histórica
transformada em linguagem.
Curiosamente,
é neste ponto que o chamado “Triângulo de Ouro da Arte” se revela menos como um
circuito turístico e mais como uma experiência quase filosófica. Do clássico ao
moderno, do equilíbrio à ruptura, da representação à fragmentação, tudo ali se
articula, sem necessidade de explicação excessiva.
E
depois, claro, há o resto. A Real
Academia de Bellas Artes de San Fernando, com o seu peso académico, quase
disciplinador. O MAN - Museo Arqueológico
Nacional, onde a história recua ainda mais, até à pré-história, como se
lembrasse que tudo isto, pintura, escultura e estética, possuem raízes muito
mais antigas do que imaginamos. E até o Museo
da América, que desloca o olhar para outro continente, introduzindo uma
dimensão inesperada, quase lateral.
No
fim, se é que há fim, fica uma sensação curiosa. Madrid não se limita a mostrar
arte. Organiza-a, cruza-a, por vezes até a contradiz. E nós, no meio disso tudo,
vamos ajustando o olhar, como quem aprende, sem dar por isso, uma nova forma de
ver.
Talvez
seja isso que distingue esta cidade. Não a quantidade de obras, nem sequer a
sua importância, embora ambas sejam inegáveis, mas essa capacidade rara de
transformar a visita em percurso interior.
Sai-se
de lá transformado, ainda que a razão dessa metamorfose nem sempre se deixe
apreender com nitidez. Há mudanças que escapam à explicação imediata,
insinuam-se apenas. E, no entanto, são inegáveis.

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