Avançar para o conteúdo principal

A densidade do humano

Dir-se-ia, por vezes, que viver é uma espécie de sobreposição contínua, como folhas translúcidas, colocadas umas sobre as outras, sem nunca coincidirem perfeitamente. A psicologia, quando não cede à tentação de simplificar, aproxima-se desta ideia. Em A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (1856-1939), o humano aparece como um campo de forças subterrâneas, desejos recalcados, imagens deslocadas, fragmentos que regressam sob disfarce. Não há linearidade, há retorno, insistência, deformação. E, curiosamente, aquilo que se oculta parece adquirir maior densidade do que o que se expõe. Mas não é apenas no oculto que essa espessura se manifesta. Carl Gustav Jung (1875-1961), num registo distinto, fala de arquétipos, formas antigas que atravessam o indivíduo sem lhe pertencerem inteiramente. Como se cada sujeito fosse habitado por narrativas anteriores, ecos coletivos que persistem. Não é identidade estável, mas antes uma espécie de palimpsesto, onde o novo nunca apaga completamente o antigo.

A literatura, nesse ponto, não descreve, depõe. Em Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (1871-1922), a memória não surge como narrativa, mas como sedimentação. O tempo não passa, infiltra-se. Cada detalhe, aparentemente mínimo, adquire espessura, prolonga-se, como se recusasse desaparecer. Ocorre uma espécie de voluptuosidade discreta, quase decadente, que faz lembrar certos interiores da Belle Époque (1871-1914), carregados de objetos, tecidos e perfumes, onde nada é supérfluo. E, no entanto, esse excesso não conduz ao caos absoluto. Há uma ordem subtil, ainda que instável. Com Virginia Woolf (1882-1941), em Mrs Dalloway, o humano dispersa-se, sem se dissolver por completo. Fragmenta-se, reorganiza-se em fluxo. A consciência deixa de ser eixo, torna-se superfície móvel, onde pensamento e sensação coexistem sem hierarquia fixa. O que emerge não é unidade, mas vibração, uma continuidade irregular, como a luz filtrada por cortinas pesadas num fim de tarde.

Se a literatura hesita, a filosofia tensiona. Martin Heidegger (1889-1976) recusa a leveza, insiste na condição de um ser lançado, exposto, finito. Existir não é ocupar um lugar neutro, é suportar uma abertura, uma vulnerabilidade originária que não se escolhe. Há aqui uma espécie de gravidade silenciosa, como se o humano estivesse sempre ligeiramente deslocado de si, em atraso em relação ao próprio estar. E Simone Weil (1909-1943), com uma delicadeza austera, desloca o foco para a atenção, não como um gesto cognitivo, mas como uma suspensão de apropriação. Olhar verdadeiramente o outro implica deixar de o reduzir. E isso, no limite, é quase uma forma de desapossamento interior.

As artes prolongam esta inquietação por vias distintas. Em The Persistence of Memory, de Salvador Dalí (1904-1989), o tempo perde consistência, torna-se viscoso, como se a própria duração se deixasse tocar. Já em Francis Bacon (1909-1992), a figura humana não se explica, expõe-se em tensão, como matéria em permanente deformação, onde o rosto nunca é apenas rosto, mas acontecimento instável.

A música, por sua vez, parece dizer o que o pensamento não fixa. Em Dmitri Shostakovich (1906-1975), a tensão não se resolve, insiste. Cada motivo transporta uma sombra, algo que não se deixa nomear por inteiro. É como se a própria escuta fosse habitada por um resto, uma memória que não chega a tornar-se narrativa.

E, regressando ao humano, talvez tudo isto não passe de uma tentativa de dar forma ao que escapa. Narrar é recortar, excluir, ordenar. Mas o excluído permanece, discretamente ativo, como pressão de fundo. Talvez por isso certas histórias sobrevivam não pelo que dizem, mas pelo que deixam em suspenso.

Há, no fundo, uma resistência persistente à transparência. O humano não se oferece sem opacidade, não se deixa reduzir sem resto. A filosofia aproxima-se, a psicologia mapeia, a literatura sugere, as artes insinuam. Nenhuma encerra, nenhuma conclui. E, ainda assim, todas convergem numa mesma inquietação, a de que há sempre mais, uma camada adicional, um excesso discreto que não se deixa fixar.

Fica, no termo das coisas, uma impressão difícil de apreender, como se persistisse um eco alongado num espaço já desabitado. Não é conclusão, nem síntese. É permanência, mas instável, quase respirante, como se o sentido hesitasse entre fixar-se e dissolver-se.

E depois disso, resta-nos esse impulso de pensar em excesso, de nos perdermos em elucubrações que tentam, ainda que sem grande fôlego, decifrar a densidade do humano. E nesse esforço instala-se uma hesitação mais funda, quase existencial, como se o próprio ser estivesse sempre ligeiramente atrasado em relação ao que tenta compreender. Talvez essa consistência não seja uma estrutura sólida, mas antes uma acumulação de instantes, de percepções, de restos sensoriais que nunca chegam a formar unidade. Talvez, quando observada de perto, essa espessura se revele mais porosa do que profunda, feita de intermitências, de pequenas falhas de presença, de modos de estar que se aproximam e se desfazem.

E fica isto sem fecho absoluto, apenas uma leitura possível, inquieta, meio suspensa.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Praça da Fruta

  Este símbolo caldense, identificado em todo o país, esteve irreconhecível por muitas semanas devido, como se sabe, à pandemia que assola o nosso planeta. Neste momento, felizmente, os vendedores, que são o rosto daquela exuberância, ali estão, novamente, a expor e a vender os seus produtos. Passada a força da borrasca, venho colocar-me em sentido, para reiniciar uma discussão, por mim encetada no dia 1 de março de 2018, aquando da apresentação da minha Proposta “ Instalação de um Céu de vidro na Praça da República”, na reunião da Assembleia de Freguesia da União de Freguesias de Caldas da Rainha – N. S. do Pópulo, Coto e São Gregório. Ora bem. Sabendo que é o mercado diário, no antigo Rossio, atual Praça da República (a badalada Praça da Fruta) que mantém viva aquela identidade, podendo, assim, trazer um bom volume de turistas a esta região, insisto, novamente, com aquele tipo de instauração, dizendo: Esse histórico local possui um importante tabuleiro em pedra e uma crónic...

A Constituição da República Portuguesa

  O Chega e a Iniciativa Liberal querem alterar a Constituição Portuguesa. A Constituição é o documento basilar de uma nação, designando os princípios da estrutura política, dos direitos do cidadão e dos limites dos poderes do Estado. Reformá-la sem um critério equilibrado, amplamente democrático e com consciência por parte de TODAS as forças políticas, pode ter consequências expressivas nos mais variados setores da sociedade, implicando com a organização dos órgãos de soberania (Governo, Presidência e Assembleia da República), prejudicando o relacionamento entre essas entidades e as suas jurisdições; pode lesar, igualmente, os Direitos dos cidadãos, tais como, a liberdade de expressão, o direito à vida, à propriedade, à saúde, à educação etc.; pode alterar o Regime Eleitoral, apartando a população do poder de voto nas eleições Legislativas, Autárquicas e Presidenciais; pode redefinir a disposição e o exercício do poder judicial, levando a um impacto na autonomia, e administração...

Capela de Santo António

  Construída no século XV e situada no centro da aldeia da Dagorda (popular e erroneamente chamada de “A-da-Gorda”, situada em Óbidos), no rossio com o mesmo nome (mas também conhecido como “praça do Jogo da Bola”), em estilo barroco, de planta longitudinal, com nave única e nártex. No interior, vemos o tríptico sob o arco da capela-mor: “São Francisco de Assis”, “A Virgem e o Menino” e “Santo António”, além das telas “A Paixão de Cristo no Horto das Oliveiras” e “São Gregório Magno”, todas obras de autoria de Josefa de Ayala e Cabreira Figueira (dita Josefa de Óbidos, 1630-1684). Além de uma tela de Baltazar Gomes Figueira (1604-1674), datada de 1643, nomeada “Repouso na Fuga para o Egito”. Na nave encontramos um belo revestimento a azulejos (aplicados no correr do século XVII), delimitados por caixilho, sendo primariamente de um silhar, ulteriormente de painéis verticais, com estalões dissemelhantes, entre desconformes cintas, sendo a fração superna, de outras duas faixas, co...