Há
livros que se aproximam de um autor pela via da explicação. Este, Los últimos tres días de Fernando Pessoa: Un
delirio, não. O texto de António Tabucchi (1943-2012) contorna Fernando
Pessoa (1888-1935) como quem entra num quarto onde ainda há presença.
Os últimos dias,
esse lugar onde a biografia costuma fechar-se com uma espécie de pontuação
final, são aqui outra coisa. Não há propriamente um fim. Há uma dilatação. O
tempo abranda, hesita, quase se suspende, e é nesse intervalo que começam a
surgir as presenças. Como continuidades imperfeitas de uma consciência que
nunca foi una.
O
que Tabucchi faz, e faz com uma precisão quase silenciosa, é deslocar a morte
do corpo para um plano menos evidente: o da identidade. Não morre apenas um
homem; começa a desfazer-se uma organização instável de vozes. E, no entanto,
esse apagar não possui nenhum sinal de violência. Há antes uma espécie de
urbanidade final entre criador e criaturas, como se todos soubessem que aquele
encontro tardio não serve para resolver nada, apenas para reconhecer.
Há
um momento, não um instante concreto, mas uma sensação que atravessa o texto,
em que se percebe que Fernando Pessoa nunca esteve verdadeiramente sozinho. Nem
agora, nem antes. A solidão, ali, é apenas uma aparência de superfície. Por
baixo, sempre houve trânsito. E é esse tráfego que António Tabucchi põe a
descoberto, sem o dramatizar em excesso.
Curiosamente,
o livro não insiste em explicar os heterónimos. Não os traduz. Não os organiza.
Deixa-os existir, o que é uma forma de respeito que a crítica raramente
pratica. Cada um chega com o seu peso próprio, com a sua cadência, com a sua
maneira de ocupar o silêncio. E este, isso é importante, não é vazio. É um
campo onde as vozes não se anulam, apenas se afastam o suficiente para não
colidirem.
Há,
no entanto, uma subtileza que talvez passe despercebida numa primeira leitura: António
Tabucchi não escreve apenas sobre Fernando Pessoa. Compõe também sobre o limite
da literatura. Até onde pode um autor ir sem perder o seu objeto? Até que ponto
se pode entrar na intimidade de outro escritor sem o transformar numa figura
excessivamente legível? O risco está sempre ali. E o que impressiona é que o
texto o reconhece, sem nunca o declarar.
O
quarto, porque no fundo tudo se passa numa alcova, não é um espaço físico. É
uma forma de consciência. Um lugar onde cabem vários modos de existir sem que
nenhum consiga reclamar a totalidade. E isso inquieta. Não a multiplicação em
si, mas a impossibilidade de a reduzir.
Quando
o fim se aproxima não há revelação. Não há síntese. Há apenas uma espécie de
esbatimento. As figuras não desaparecem; tornam-se menos nítidas. Como se regressassem
ao lugar de onde vieram, que não é exatamente a imaginação, nem a memória, mas
um território intermédio, difícil de nomear.
Fica
então uma impressão estranha, quase física, a de que a morte, ali, não resolve
nada. Limita-se a interromper um processo que já era, por natureza,
inconclusivo. E deve ser por isso que o texto resiste, porque não fecha, não
explica, não encerra. Permanece, como um quarto onde alguém acabou de sair, mas
onde ainda se sente, vagamente, que há mais gente.
A
edição que possuo é espanhola, de Madrid, publicada pela Alianza Editorial em
1996. Há nisto um detalhe que não é meramente bibliográfico, embora o pudesse
ser. Ler António Tabucchi sobre Fernando Pessoa em espanhol é, de certo modo,
aceitar um desvio suplementar, uma espécie de terceira língua a atravessar duas
vozes já por si deslocadas. O português de Fernando Pessoa, mesmo quando
fragmentado pelos seus heterónimos, chega-nos aqui mediado, traduzido,
ligeiramente deslocado do seu eixo habitual. E é precisamente nesse
afastamento, quase discreto, que o texto ganha outra espessura, como se a
distância editorial (Madrid, 1996, uma Alianza que também é encontro)
acrescentasse mais um véu a essa convivência já complexa entre autor, máscaras
e fim.
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