Durante
décadas, milhões de leitores atravessaram desertos imaginários através das
páginas escritas por Christian Jacq (1947-), caminharam entre colunas
monumentais, ouviram sacerdotes murmurando fórmulas funerárias diante do Nilo e
acompanharam faraós que pareciam viver simultaneamente na política e no mito.
Poucos escritores contemporâneos conseguiram transformar o Egipto Antigo numa
paisagem emocional tão reconhecível. Será isso que explica o fenómeno?
O
Egipto nunca desapareceu verdadeiramente do imaginário ocidental. Continua ali,
imóvel e silencioso, como uma obsessão arqueológica da civilização europeia.
Roma caiu. Cartago desapareceu. A Grécia fragmentou-se em ruínas e filosofia.
Mas o Egipto, não. O Egipto permaneceu sempre envolvido numa espécie de
eternidade mineral.
As
pirâmides ajudam, claro. Nenhuma civilização compreendeu tão cedo o valor
político da pedra. Há regimes modernos inteiros que duram menos do que um
corredor funerário em Gizé. E isso produz vertigem.
Christian
Jacq percebeu essa vertigem melhor do que muitos académicos. Talvez porque
nunca escreveu apenas sobre História. Escreveu sobre permanência. É completamente
diferente.
Nos
seus romances, sobretudo na célebre série dedicada a Ramessés II, o poder surge
ligado a uma ideia de ordem cósmica. O faraó não governa apenas homens; administra
equilíbrio, continuidade, harmonia entre terra e divino. Hoje, num tempo em que
quase toda a política parece reduzida a gestão de curto prazo e combate tático
permanente, essa dimensão simbólica tornou-se praticamente incompreensível.
Talvez por isso seduza tanto.
Certamente,
Christian Jacq foi acusado inúmeras vezes de romantizar o Egipto faraónico. Há,
com certeza, justiça parcial nessa crítica. Os seus livros tendem a suavizar
violências estruturais, hierarquias brutais, zonas menos luminosas daquela
civilização. Mas seria ingénuo exigir-lhe neutralidade arqueológica absoluta. A
literatura nunca funcionou assim. Nem Homero (928 a. C.-898 a. C.) escreveu um
relatório militar sobre Troia.
Além
disso, encontramos algo profundamente humano na maneira como Christian Jacq
olha para o passado. Ao contrário de certa ficção histórica contemporânea,
excessivamente irónica ou cínica, os seus romances ainda acreditam em grandeza.
A palavra pode soar antiquada, quase desconfortável, mas é talvez inevitável.
Nos seus livros, os homens ainda procuram deixar marcas duradouras no tempo.
Hoje, muitas vezes, mal conseguimos sobreviver ao ciclo noticioso da semana.
Há
também um detalhe curioso: Christian Jacq pertence à linhagem daqueles
intelectuais franceses que ainda cultivavam uma relação quase sacerdotal com o
saber. A França produziu muitos assim. Não apenas especialistas, mas mediadores
culturais capazes de transformar erudição em imaginário popular. Uma tradição
que vai de André Malraux (1901-1976) até certos documentaristas históricos
contemporâneos. Christian Jacq ocupa aí um lugar singular, menos sofisticado
talvez, mas extraordinariamente eficaz.
E
depois existe o próprio Egipto, inevitavelmente. Porque o Egipto não funciona
apenas como cenário. Move-se como metáfora daquilo que as civilizações desejam
secretamente: durar. Resistir ao desaparecimento. Escapar ao esquecimento. Cada
sarcófago, cada estela, cada nome gravado em pedra parece repetir a mesma
súplica silenciosa através dos séculos: “não me apaguem”.
Creio
que Christian Jacq compreendeu uma coisa simples e antiga: a humanidade
continua fascinada não apenas pela morte, mas pela possibilidade de sobreviver
a ela através da memória. E poucas culturas transformaram essa obsessão numa
arquitetura tão monumental quanto o Egipto faraónico.
Há
civilizações que nos ensinam a viver. O Egipto, estranhamente, continua a
ensinar-nos a permanecer.

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