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Ryoki Inoue

Durante muito tempo, no Brasil, milhares de pessoas leram o mesmo homem sem o saber. Compravam-no em bancas de jornais, levavam-no em viagens longas de autocarro, abandonavam-no sobre mesinhas de cabeceira, dobravam-lhe os cantos, esqueciam-no em salas de espera, estações ferroviárias, consultórios médicos, quartéis, pensões baratas. Mudavam apenas os nomes impressos nas capas. Peter Kapra. Donald Curtis. Mortimer Cody. James Monroe. Jeff Madison. Havia dezenas deles. Quase quarenta identidades diferentes, dispersas por romances policiais, westerns, espionagem, aventuras militares, ficção científica, melodramas sentimentais, narrativas de guerra. O leitor comum dificilmente suspeitaria que, por detrás daquela multiplicação vertiginosa de autores estrangeirados, existia um único brasileiro sentado diante de uma máquina de escrever em São Paulo. Esse homem chamava-se José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue.

A sua história é algo anómala, quase biologicamente improvável. Não apenas pelo volume monumental da obra literária publicada, superior a mil livros, facto que acabaria por levá-lo ao Guinness World Records em 1993 como o escritor mais prolífico do mundo, mas porque toda a sua trajetória parece desafiar certas convenções profundamente enraizadas acerca da literatura, do trabalho intelectual e até da própria ideia de criação artística. Ryoki nunca encaixou confortavelmente na imagem tradicional do escritor latino-americano. Não cultivava o silêncio cerimonial do autor de prestígio. Não vivia cercado por entrevistas melancólicas nem dependia daquela aura fatigada de génio incompreendido que tantas vezes seduz os meios culturais. A sua relação com a escrita era menos romântica do que física. Quase muscular.

Nasceu em Campos do Jordão, São Paulo, a 22 de Julho de 1946, filho de pai japonês e mãe portuguesa. A própria composição familiar contém uma síntese improvável de mundos distintos. Do lado paterno, uma herança marcada pelo rigor disciplinar nipónico, pela persistência silenciosa, pela valorização do trabalho contínuo; do lado materno, um imaginário inevitavelmente ligado à oralidade, à nostalgia, àquela inclinação ibérica para transformar memória em narrativa. Em Ryoki existe, desde cedo, uma combinação singular entre obstinação quase industrial e imaginação descritiva incessante. Contudo, antes da literatura veio outra profissão.

Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, uma das mais respeitadas instituições académicas brasileiras, formando-se em 1970. Especializou-se posteriormente em cirurgia torácica. Vale a pena deter-mo-nos um instante nesta fase porque ela raramente recebe a atenção necessária. A medicina, sobretudo certas especialidades cirúrgicas, impõe ao indivíduo uma disciplina mental particularmente severa. Exige concentração prolongada, resistência física, rapidez decisória, precisão técnica, capacidade de operar sob tensão contínua. Não é impossível imaginar que parte da impressionante metodologia de trabalho desenvolvida mais tarde por Ryoki tenha raízes nesse ambiente clínico e hospitalar. Durante muitos anos dividiu-se entre hospitais e literatura.

Vejo algo cinematográfico aqui: um cirurgião torácico que, após lidar diariamente com corpos abertos sob a luz branca do bloco operatório, regressava a casa para escrever perseguições ferroviárias, duelos no deserto, conspirações internacionais, detetives privados, agentes secretos, vinganças improváveis, paixões melodramáticas e guerras imaginárias. De um lado, o contato brutal com a fragilidade biológica humana; do outro, a criação incessante de universos ficcionais destinados ao entretenimento popular. E, o que é impressionante, escrevia numa velocidade difícil de compreender.

Convém recordar o contexto tecnológico da época. Estamos a falar de décadas anteriores à internet, aos processadores de texto modernos, à automação digital, aos mecanismos contemporâneos de aceleração editorial. Ryoki trabalhava inicialmente em máquinas de escrever convencionais. Diversos relatos mencionam o uso de papel contínuo para evitar interrupções desnecessárias. A ideia parece quase obsessiva: reduzir ao mínimo qualquer obstáculo físico entre pensamento e produção textual. Enquanto muitos escritores dependiam de longos períodos contemplativos ou aguardavam aquilo que romanticamente chamavam “inspiração”, Ryoki aproximava-se mais de um artesão narrativo. Ou talvez de um operário da imaginação.

A palavra “operário” poderá parecer ofensiva a certos círculos literários, mas talvez descreva a sua ética de trabalho com maior exatidão do que qualquer conceito mais sofisticado. Ele escrevia todos os dias. Continuamente. Metodicamente. A literatura, para si, não era apenas expressão artística; era profissão, engenharia narrativa, arquitetura de suspense, técnica de ritmo, construção emocional orientada para leitores concretos.

Durante as décadas de 1970, 80 e 90, o Brasil possuía um mercado extremamente ativo de livros de bolso e romances populares vendidos em bancas. Hoje esse universo praticamente desapareceu ou tornou-se marginal, esmagado pela transformação digital e pelas mudanças nos hábitos de leitura. Mas durante muito tempo constituiu uma verdadeira indústria cultural paralela. Westerns baratos, thrillers policiais, espionagem internacional, romances sentimentais, ficção de aventura, tudo isso circulava intensamente entre trabalhadores urbanos, viajantes, militares, estudantes, leitores ocasionais. Era literatura acessível, portátil, veloz. Consumida quase sempre fora dos espaços legitimadores da alta cultura. Ryoki acabou por tornar-se uma peça central dessa engrenagem editorial.

Os pseudónimos multiplicavam-se porque o mercado precisava de abundância constante. Os editores receavam que o público percebesse que uma parte significativa daqueles “autores estrangeiros” era, afinal, o mesmo brasileiro hiperprodutivo. Assim surgiram dezenas de identidades fictícias cuidadosamente distribuídas pelas coleções populares. Ryoki precisou fragmentar a própria autoria para sustentar a dimensão da sua presença editorial. Quanto mais escrevia, menos visível se tornava enquanto indivíduo singular.

Ao longo dos anos produziu centenas de romances. Algumas estimativas apontam para mais de 1.100 títulos publicados. O número exato permanece difícil de estabelecer porque parte da produção dispersou-se em colecções antigas, editoras desaparecidas, reedições confusas e assinaturas múltiplas. Ainda assim, a escala impressiona inevitavelmente. Não estamos perante um escritor ocasionalmente produtivo. Estamos diante de um fenómeno editorial raro mesmo à escala internacional.

Em 1993 o Guinness World Records reconheceu-o oficialmente como o escritor mais prolífico do planeta. A notícia circulou amplamente na imprensa brasileira e estrangeira. O feito, porém, trouxe consigo uma consequência ambígua. A partir desse momento Ryoki começou frequentemente a ser tratado como curiosidade estatística. O homem dos mil livros. O recordista. O fabricante humano de páginas. O espanto quantitativo eclipsava muitas vezes qualquer discussão séria acerca do significado cultural da sua obra literária.

Durante décadas, parte considerável da intelectualidade brasileira olhou com desconfiança para a literatura popular de massa. O western era considerado género menor. O policial era visto como entretenimento descartável. A aventura comercial parecia incompatível com o prestígio académico. Tal preconceito, herdado em larga medida de certas tradições europeias excessivamente hierarquizadas, impediu durante muito tempo uma análise mais complexa da produção pulp brasileira.

Ora, a literatura popular possui importância histórica enorme. Os folhetins franceses do século XIX, os dime novels norte-americanos, os penny dreadfuls ingleses, as revistas pulp do início do século XX, todos esses formatos ajudaram decisivamente a consolidar hábitos modernos de leitura. Eram narrativas rápidas, serializadas, acessíveis, muitas vezes desprezadas pelas elites intelectuais do seu tempo. No entanto, moldaram milhares de mundos imaginários.

Ryoki Inoue insere-se precisamente nessa tradição. A sua escrita privilegiava ritmo descritivo, progressão dramática, tensão contínua. Não procurava experimentalismos formais sofisticados nem introspecções filosóficas excessivas. Procurava prender o leitor. Fazer avançar a narrativa. Criar urgência emocional. Em muitos aspectos aproximava-se dos antigos artesãos do folhetim europeu oitocentista, autores capazes de produzir páginas em ritmo industrial sem perder eficácia narrativa.

Milhares de pessoas descobriram o prazer da leitura através dos seus livros de bolso comprados casualmente em bancas de jornal. Outras recordam-no como presença constante em quartéis militares, dormitórios estudantis, longas viagens rodoviárias pelo interior brasileiro. A circulação da sua obra literária escapava frequentemente aos circuitos culturais tradicionais. Não dependia de prémios importantes nem de reconhecimento universitário. Dependia da fome permanente por histórias.

Existe, todavia, alguma melancolia na trajetória de Ryoki. A enorme produtividade que lhe trouxe notoriedade também dificultou a consolidação do seu estatuto crítico. Muitos observadores olhavam para o volume da obra com uma espécie de suspeita automática, como se quantidade implicasse necessariamente superficialidade estética. É um raciocínio simplista. A história da literatura está cheia de autores extremamente prolíficos, de Honoré de Balzac (1799-1850) a Georges Simenon (1903–1989), de Alexandre Dumas (1802–1870) a Isaac Asimov (1920–1992), de Coelho Neto (1864–1934) a Camilo Castelo Branco (1825–1890). Produzir muito não significa obrigatoriamente produzir mal. Indica apenas habitar uma relação diferente com o ato de escrever. No caso de Ryoki, essa relação aproximava-se quase de uma compulsão disciplinada.

Há relatos de jornadas extenuantes de trabalho, horas contínuas diante da máquina de escrever, produção diária incessante. A literatura funcionava como mecanismo vital. Não mero labor intelectual ocasional, mas estrutura organizadora da existência. Talvez por isso a sua figura exerça fascínio tão particular num tempo contemporâneo obcecado pela produtividade, pelos limites humanos da criação e pela mecanização do trabalho criativo.

Muito antes da inteligência artificial começar a gerar textos em segundos, Ryoki Inoue já parecia encarnar uma espécie de máquina narrativa humana. Mas reduzir o seu percurso a esse espanto tecnológico retrospectivo seria injusto. Porque havia, no centro de tudo, uma experiência profundamente humana: persistência. Resistência. Trabalho contínuo contra o desgaste físico, editorial e cultural.

Nos últimos anos surgiram notícias acerca de inúmeras dificuldades de saúde enfrentadas pelo escritor. O homem que durante décadas produziu torrentes de narrativas confrontou-se inevitavelmente com os limites do próprio corpo. A mão que escreveu milhares de páginas torna-se mais lenta. A mente habituada à velocidade descritiva encontra obstáculos biológicos. Nenhuma produtividade derrota completamente o tempo. Ainda assim, o legado permanece disperso pelas estantes antigas do Brasil. Em sebos poeirentos, caixas esquecidas, colecções incompletas, bibliotecas privadas, bancas decadentes, continuam a sobreviver os inúmeros pseudónimos de Ryoki Inoue. Livros baratos, papel amarelecido, capas gastas pelo manuseamento de décadas. Objetos aparentemente modestos, mas que testemunham um fenómeno literário raríssimo.

Talvez a crítica académica ainda demore algum tempo a compreender integralmente a importância cultural da sua obra literária. Talvez nunca a assimile totalmente. Não importa muito. Há escritores que pertencem à história íntima dos leitores comuns, que acompanharam viagens longas, noites de insónia, adolescências solitárias, quartéis distantes, esperas silenciosas. Ryoki pertence a essa categoria subterrânea da literatura, menos visível nos cânones oficiais, porém profundamente enraizada na memória afetiva de milhares de pessoas.

O que verdadeiramente importa é que perdura. E, justamente por permanecer, deveria tornar-se alvo de uma investigação longa, rigorosa e paciente, capaz de resgatar não apenas o homem cujo nome está apontado no Guinness World Records, mas também o artesão invisível que ajudou a alimentar durante décadas o imaginário popular brasileiro. Espero que o futuro venha a reconhecê-lo como uma figura singular da literatura de massa em língua portuguesa, alguém que, através da disciplina quase sobre-humana da escrita, ofereceu a milhares de leitores aquilo que toda narrativa procura desde os tempos mais antigos: a possibilidade momentânea de escapar da realidade e continuar a sonhar.

 

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