Avançar para o conteúdo principal

Picadeiro Real

Sou o Picadeiro Real, testemunha silenciosa do tempo e do poder que se move a galope. Em 1726, D. João V (1689-1750) trouxe-me para Belém, na Quinta de Baixo, junto ao Tejo. Não era apenas um edifício; era um recanto modesto de equitação, um espaço onde a corte praticava e mostrava o domínio dos cavalos, refletindo a presença diária do rei e da sua vida entre palácios e jardins. Décadas depois, em 1786, o infante D. João (1767-1826), que se tornaria D. João VI, decidiu transformar-me. Chamou Giacomo Azzolini (1723-1791), arquiteto italiano, para erguer-me em grandeza e elegância, criando um salão de cinquenta metros por dezassete, com dois pisos e tribunas superiores ligadas por galerias colunadas, permitindo à família real assistir às demonstrações sem interromper a vida que se desenrolava abaixo.

As obras começaram em 1787. Num impulso quase decidido, dir-se-ia urgente, ergui-me depressa, ganhando forma, volume, presença. Um ano bastou para que o meu corpo se afirmasse. Mas a alma… essa demorou. Veio depois, aos poucos, como se cada gesto decorativo fosse uma respiração acrescentada, um sopro tardio que se prolongaria, com paciência e desvelo, até cerca de 1828.

Foram várias as mãos que me moldaram, e nem todas deixaram o nome claro na memória. Francisco José de Oliveira[1] e Nicolas-Louis-Albert Delerive (1755-1818) trouxeram consigo um certo rigor, quase coreográfico, como se cada linha obedecesse a uma disciplina invisível. Não era apenas ornamento; havia ali intenção, ainda que silenciosa, uma tentativa de fixar o movimento, de domesticar o ímpeto do cavalo sem lhe retirar a nobreza.

Depois, em 1791, chegaram os azulejos pelas mãos de Francisco José da Costa[2]. Vieram revestir-me as tribunas com aquele azul que, em Portugal, nunca é apenas cor, é memória e tradição, quase um idioma visual. Há quem diga que os azulejos contam histórias; eu diria, talvez com alguma hesitação, que sussurram.

Dois anos mais tarde, em 1793, Gonçalo José[3] ergueu a balaustrada que separa o público do espectáculo. Uma fronteira discreta, mas decisiva. Porque aqui, convém não esquecer, não se vinha apenas ver: vinha-se assistir, participar, ser parte de um ritual onde o olhar também encena.

E acima de tudo, no teto, os medalhões. Não apenas cenas, isso seria dizer pouco, mas alegorias que oscilam entre o mundo e o poder, entre a ordem e a força. O cavalo surge, sim, com destaque, como símbolo de domínio e elegância, mas não está só. Há ecos de guerra e de paz, de continentes longínquos, de uma visão do mundo que a corte procurava afirmar, ou talvez encenar, que a palavra não é inocente.

Assim, tornei-me mais do que espaço. Fui palco e metáfora. Um lugar onde o gesto equestre se elevava a linguagem, e onde, por instantes, o poder deixava de ser apenas exercido para passar a ser representado. E isso muda tudo, ainda que nem sempre se note à primeira vista.

Um século depois, em 1904, senti-me chamado a uma nova função. A rainha D. Amélia (Marie Amélie Louise Hélène d’Orleães, 1865-1951) decidiu que eu abrigaria o Museu dos Coches Reaes. Sob a direção de Rosendo Carvalheira (1861-1919), fui adaptado, e José Malhôa (1855-1933) e António Conceição e Silva (1869-1958) restauraram as minhas pinturas, respeitando a minha essência. A 23 de maio de 1905, inaugurei-me oficialmente. Mal comecei a receber visitantes, e já faltava espaço para todas as viaturas da Casa Real, dispersas pelos palácios. Em 1906, a rainha ordenou ampliar-me, mantendo harmonia entre arquitetura, luz e disposição das peças.

A República chegou em 1910, e com ela novas histórias vieram preencher-me: coches e berlindas da Casa Real extinta e de bens da igreja passaram a habitar-me, e em 1911 assumi o nome de Museu Nacional dos Coches. Décadas depois, em 1944, Raul Lino (1879-1974) projetou um novo salão que me permitiu mostrar mais da minha coleção, embora ainda incompleta, limitada pelos espaços que o tempo permitia.

Hoje, permaneço visitável, com os meus coches, as berlindas, a galeria de pintura da família real e os acessórios de cavalaria. Cada detalhe, tribunas, painéis, azulejos, degraus da balaustrada, conta a história de mãos que me construíram, pintaram e habitaram. Carrego comigo a tensão entre monumentalidade e intimidade, entre gesto estético e função prática. Sou mais do que tijolos e pinturas: sou a memória tangível de uma corte que encontrou nos cavalos e nos coches um modo de afirmar identidade, poder e presença, uma narrativa de pessoas, gestos e cavalos que atravessou séculos e continua a ecoar nas paredes do meu salão.

Presentemente, sou designado como “o antigo Museu Nacional dos Coches”, denominação que me foi imposta na sequência da edificação de um novo espaço museológico (e permita-se-me, num aparte quase sussurrado, sem o mesmo encanto nem igual apuro estético). Não obstante, persisto, dir-se-ia até, insisto, em palpitar no seio de muros seculares que o tempo, benigno, ainda não logrou desfazer.

No meu interior subsistem carruagens e viaturas de aparato do século XVIII, testemunhos materiais de uma época em que o peso da corte se fazia sentir tanto na pompa dos cortejos quanto no fulgor dos arreios ricamente lavrados. São vestígios de um mundo cerimonial, hoje distante, mas não inteiramente silenciado.

Guardo, ademais, um espaço de evocação dedicado à Rainha Amélia de Orleães, cuja memória, subtil mas persistente, parece ainda insinuar-se pelos meus corredores, como um eco que resiste à dissipação.

Para o meu íntimo regozijo, e não o oculto, mantenho, ainda, a galeria de pintura dos Reis de Portugal, que sob o meu teto repousa: discreta, silenciosa, mas investida de uma dignidade que dispensa alarde.

Não sou, pois, um espaço indiferenciado. Sou testemunho. Encontro-me classificado como Monumento Nacional, integrado no conjunto do Palácio Nacional de Belém, e inscrevo-me, com a totalidade do meu perímetro intramuros, na continuidade de uma narrativa que atravessa séculos.

Cada pedra, sim, cada pedra, cada elemento escultórico, cada minúcia construtiva, constitui um apelo tácito: escutai. Porque é através de mim que ainda se enuncia, fragmentada, mas viva, a memória da Corte, dos cavalos e dos gestos que estiveram na minha origem.



[1] Francisco José de Oliveira terá sido um pintor ou decorador lisboeta, nascido algures a meio do século XVIII, ativo sobretudo nas décadas de 1780-1790, e provavelmente falecido no início do século XIX.

[2] Francisco José da Costa terá sido um mestre azulejador lisboeta, nascido algures a meio do século XVIII, ativo nas décadas de 1770-1790, e provavelmente falecido no início do século XIX.

[3] Gonçalo José terá sido um artífice ou entalhador lisboeta, nascido algures na primeira metade do século XVIII, ativo sobretudo na década de 1790, e provavelmente falecido no início do século XIX.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Praça da Fruta

  Este símbolo caldense, identificado em todo o país, esteve irreconhecível por muitas semanas devido, como se sabe, à pandemia que assola o nosso planeta. Neste momento, felizmente, os vendedores, que são o rosto daquela exuberância, ali estão, novamente, a expor e a vender os seus produtos. Passada a força da borrasca, venho colocar-me em sentido, para reiniciar uma discussão, por mim encetada no dia 1 de março de 2018, aquando da apresentação da minha Proposta “ Instalação de um Céu de vidro na Praça da República”, na reunião da Assembleia de Freguesia da União de Freguesias de Caldas da Rainha – N. S. do Pópulo, Coto e São Gregório. Ora bem. Sabendo que é o mercado diário, no antigo Rossio, atual Praça da República (a badalada Praça da Fruta) que mantém viva aquela identidade, podendo, assim, trazer um bom volume de turistas a esta região, insisto, novamente, com aquele tipo de instauração, dizendo: Esse histórico local possui um importante tabuleiro em pedra e uma crónic...

A Constituição da República Portuguesa

  O Chega e a Iniciativa Liberal querem alterar a Constituição Portuguesa. A Constituição é o documento basilar de uma nação, designando os princípios da estrutura política, dos direitos do cidadão e dos limites dos poderes do Estado. Reformá-la sem um critério equilibrado, amplamente democrático e com consciência por parte de TODAS as forças políticas, pode ter consequências expressivas nos mais variados setores da sociedade, implicando com a organização dos órgãos de soberania (Governo, Presidência e Assembleia da República), prejudicando o relacionamento entre essas entidades e as suas jurisdições; pode lesar, igualmente, os Direitos dos cidadãos, tais como, a liberdade de expressão, o direito à vida, à propriedade, à saúde, à educação etc.; pode alterar o Regime Eleitoral, apartando a população do poder de voto nas eleições Legislativas, Autárquicas e Presidenciais; pode redefinir a disposição e o exercício do poder judicial, levando a um impacto na autonomia, e administração...

Capela de Santo António

  Construída no século XV e situada no centro da aldeia da Dagorda (popular e erroneamente chamada de “A-da-Gorda”, situada em Óbidos), no rossio com o mesmo nome (mas também conhecido como “praça do Jogo da Bola”), em estilo barroco, de planta longitudinal, com nave única e nártex. No interior, vemos o tríptico sob o arco da capela-mor: “São Francisco de Assis”, “A Virgem e o Menino” e “Santo António”, além das telas “A Paixão de Cristo no Horto das Oliveiras” e “São Gregório Magno”, todas obras de autoria de Josefa de Ayala e Cabreira Figueira (dita Josefa de Óbidos, 1630-1684). Além de uma tela de Baltazar Gomes Figueira (1604-1674), datada de 1643, nomeada “Repouso na Fuga para o Egito”. Na nave encontramos um belo revestimento a azulejos (aplicados no correr do século XVII), delimitados por caixilho, sendo primariamente de um silhar, ulteriormente de painéis verticais, com estalões dissemelhantes, entre desconformes cintas, sendo a fração superna, de outras duas faixas, co...