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Ecos de um Perdão

Esta manhã, ainda sob a luz indecisa que antecede o pleno despertar do dia, recebi, de uma amiga querida, por via digital, uma fotografia que me perturbou mais do que estaria disposto a admitir à primeira vista. Não era, em si mesma, uma imagem extraordinária; e, no entanto, carregava consigo um peso silencioso, quase filosófico, como se condensasse, num único instante, uma longa sucessão de gestos, erros, ressentimentos e destinos cruzados. Nela surgia a figura de um indivíduo que, entre os anos de 1982 e 2000, marcou negativamente o meu percurso, alguém cuja presença, à época, me trouxe prejuízos que não foram apenas circunstanciais, mas também íntimos, difíceis de nomear e ainda mais de esquecer.

Há seres que parecem mover-se sob o signo da inquietação permanente, como se carregassem dentro de si uma espécie de desordem essencial. A filosofia antiga, penso, inevitavelmente, nos estoicos, ensinava que o homem perturbado não é aquele que sofre por causas externas, mas aquele que se deixa governar pelas suas próprias paixões desmedidas. E era precisamente essa impressão que sempre tive: a de estar diante de alguém consumido por uma inquietação que não encontrava repouso, alguém cuja inveja não era apenas um sentimento passageiro, mas uma forma de estar no mundo.

A inveja, dir-se-ia com Arthur Schopenhauer (1788-1860), é talvez uma das mais corrosivas manifestações da vontade frustrada; não se limita a desejar o que o outro possui, antes se compraz em diminuir, em corroer, em obscurecer. E assim era. As suas ações, frequentemente impulsivas, revelavam mais do que uma simples hostilidade: eram o reflexo de um interior desordenado, de uma alma incapaz de se reconciliar consigo mesma. Há, nestes casos, uma espécie de transparência involuntária, aquilo que o coração alberga, cedo ou tarde, transborda para o gesto.

Contudo, e é aqui que a vida, com a sua ironia silenciosa, se impõe: ao contemplar a fotografia, não senti triunfo, nem sequer a satisfação amarga que por vezes acompanha a ideia de uma justiça tardia. Senti, antes, uma tristeza funda, inesperada, quase desarmante. A figura que ali surgia estava diminuída, não tanto pelo peso dos anos, que a todos nos alcança, mas por algo mais difícil de precisar: uma espécie de desgaste interior, como se o tempo tivesse apenas revelado aquilo que já se encontrava em estado latente.

Lembrei-me, então, de Friedrich Nietzsche (1844-1900), quando fala do ressentimento como uma força que, incapaz de criar, se limita a reagir, a corroer lentamente quem a abriga. Não é uma chama que ilumina; é um fogo subterrâneo, persistente, que consome sem nunca se mostrar plenamente. E talvez fosse isso, afinal, que ali se deixava entrever: não propriamente a derrota no sentido exterior, mas o esgotamento de quem viveu demasiado tempo em conflito consigo próprio.

Há uma justiça peculiar, quase trágica, na forma como certas vidas se desenrolam. Não uma equidade instituída, nem sequer visível aos olhos apressados, mas uma espécie de coerência interna, como se cada gesto deixasse uma marca invisível que, com o tempo, se acumula e se torna inevitável. Aquele que semeia inquietação, raramente colhe serenidade. Não por castigo, mas por uma lógica quase orgânica da existência.

Importa ainda dizer, e não sem uma leve hesitação, como quem mede o peso das palavras, que há mais de vinte e cinco anos não o vejo, nem com ele troco palavra. A distância, primeiro imposta pelas conjunturas, acabou por se tornar escolha, talvez até necessidade. Ainda assim, no silêncio desses anos, operou-se algo que não depende da presença nem do diálogo: perdoei-o. Sem alarde, sem anúncio, mas com a convicção tranquila de que o perdão não é um favor concedido ao outro, mas uma libertação atribuída a si próprio.

E, contudo, ouso ir mais longe: creio, ou, pelo menos, inclino-me a crer, que apenas o perdão daqueles que foram atingidos possui a força íntima, quase metafísica, de resgatar o espírito que errou. Quando, um dia, esse homem atravessar o limiar último da sua existência no planeta Terra, não serão os seus gestos de outrora que o absolverão, mas, talvez, a misericórdia silenciosa daqueles que decidiu ferir. Há nisso algo de profundamente humano, e ao mesmo tempo, quase sagrado.

E, no fim, é essa a nota que permanece: não o juízo, não a memória amarga, mas uma forma serena de compaixão. Porque, se é verdade que as feridas marcam, também o é que o perdão, quando autêntico, tem a rara capacidade de as transfigurar.

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