Há
dias em que a palavra “cultura” me soa a moeda gasta, dessas que passam de mão
em mão até perderem o relevo, o desenho, a própria identidade. E, no entanto,
insiste-se, repete-se, discursa-se sobre ela com uma segurança quase irritante.
Sobretudo, diga-se, por quem raramente a frequenta, ou melhor, por quem a trata
como conceito abstrato, arrumado numa gaveta ao lado de “economia” ou
“legislação”. Advogados, por exemplo, ou deputados de ocasião, embora aqui
talvez me esteja a alongar, mas há vícios que pedem nome.
O
curioso é que a cultura, essa coisa inquieta e escorregadia, nunca foi matéria
de definição simples. Não cabe num decreto, nem se organiza em alíneas bem
comportadas. É, antes, um organismo vivo, irregular, feito de camadas, de
hesitações, de heranças contraditórias. Um conjunto de saberes, crenças,
práticas, sim, mas também de silêncios, de gestos quase invisíveis, de hábitos
que ninguém ensina e todos repetem.
Pense-se,
por exemplo, na Espanha. À primeira vista, uma unidade, bandeira, língua
dominante, fronteiras claras. Mas basta atravessar algumas dezenas de
quilómetros para perceber que essa suposta homogeneidade é uma ficção
conveniente. A Catalunha não é a Galiza, o País Basco não se confunde com a
Andaluzia, e cada uma dessas regiões guarda não apenas tradições distintas, mas
formas próprias de sentir o mundo, de o dizer, de o celebrar.
E,
diga-se sem hesitação, trata-se de um país admiravelmente lindo, de uma beleza
que não se esgota nas paisagens óbvias, mas que se infiltra na luz das cidades,
na textura das ruas, no modo como a vida parece acontecer sem esforço aparente,
quase com elegância distraída.
Há
ali uma espécie de pulsação comum, é certo, algo que se reconhece no gosto pela
convivência, no prazer demorado da mesa, nesse ritual quase coreografado de “ir
de tapas”, onde o tempo abranda e a conversa se estende. Comer tarde, viver
tarde, talvez até pensar tarde, como se a pressa fosse uma doença estrangeira.
E
depois, claro, a herança. Sempre a herança. Romanos, visigodos, mouros, cada
qual deixando marcas, umas mais visíveis, outras diluídas no quotidiano. A Sagrada Família ergue-se como promessa
inacabada, quase teimosa; a Alhambra
guarda ecos islâmicos em cada detalhe geométrico; a Mesquita de Córdoba, essa, parece suspensa entre mundos, como se
recusasse escolher apenas um.
Mas
reduzir a cultura a monumentos seria, ainda assim, um erro cómodo. Ela vive
também no que não se fotografa com facilidade: no flamenco que se improvisa, na
festa que interrompe a rotina, na sesta que resiste ao ritmo moderno, sobretudo
no verão, quando o calor obriga o corpo a negociar com o tempo.
E
há ainda um outro ponto, menos falado, talvez, mas que importa trazer à
superfície: a forma como o Estado se posiciona perante quem lá vive. Com todas
as imperfeições inevitáveis, porque nenhum sistema é isento delas, há uma
percepção, difusa mas persistente, de que o governo procura, de facto, governar
para as pessoas, não apenas para os que ali nasceram, mas também para os que
chegam, trabalham, se instalam, constroem vida. Não é um detalhe menor, é,
aliás, parte integrante dessa tal cultura que não se escreve em manuais.
Há,
todavia, uma dimensão mais profunda, mais arcaica, quase de ordem subterrânea.
A cultura de um povo não se inaugura no ontem, nem no anteontem, tampouco há um
século. Remonta a longínquas estratificações históricas, resultantes da
sobreposição de povos que transitaram, se fixaram, inscreveram vestígios, uns
ainda discerníveis, outros já diluídos na erosão do tempo. Configura-se, assim,
como uma continuidade atravessada por rupturas, um aparente paradoxo em que a
permanência reside, justamente, na incessante mutabilidade.
Considere-se
o caso de Portugal. Aquilo que hoje identificamos como identidade nacional
corresponde, em verdade, a uma configuração transitória, outrora diversa,
marcada por outras línguas, distintos costumes, formas alternativas de
organização social. Antes disso, outras ainda se sucederam, e antes dessas,
novas camadas se acumulam, num recuo que, levado às últimas consequências,
fragiliza a própria noção de uma origem fixa. Nada subsiste incólume, tudo se
metamorfoseia, ora de modo lento, quase imperceptível, ora sob o ímpeto das
grandes convulsões históricas.
Nunca
estaremos, enquanto comunidades, num ponto final. A cultura não conhece esse
tipo de fecho, não admite conclusão. É processo, é fluxo, é negociação
constante entre passado e presente, entre o que herdamos e aquilo que, sem dar
por isso, vamos alterando.
No
fundo, cultura é isto, uma teia densa de significados, materiais e imateriais,
onde cabem tanto os grandes gestos como as minúcias do dia-a-dia. Aprende-se,
absorve-se, herda-se sem dar por isso. Não nasce connosco, mas instala-se,
pouco a pouco, até se confundir com aquilo que julgamos ser “natural”.
E
talvez seja precisamente por isso que causa algum desconforto ouvir definições
demasiado limpas, excessivamente seguras. Porque a cultura, quando é explicada
com rigidez, perde aquilo que a torna viva, essa capacidade de se transformar,
de se contradizer, de escapar.
Não,
não é um advogado, nem um deputado, salvo raras excepções, que as há, convém
reconhecê-lo, que nos dirá o que é a cultura. Podem descrevê-la, tentar
enquadrá-la, até regulamentá-la. Mas explicá-la, verdadeiramente explicá-la,
isso exige outra coisa. Tempo, talvez. E uma certa humildade, que, convenhamos,
nem sempre abunda.

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