Teve,
entretanto, início o XXV Congresso Nacional do Partido Socialista, tendo sido
escolhido, para acolher tão relevante assembleia, o pavilhão multiusos da
cidade de Viseu, espaço amplo, quase simbólico na sua abertura, ainda que, por
contraste, certas realidades internas pareçam fechar-se sobre si mesmas.
A
proclamação, de tonalidade otimista e impregnada de uma esperança deliberada,
enunciada por José Luís Carneiro, “Estamos vivos”, poderá, em alguma medida,
infundir ânimo aos que permanecem fiéis ao meu PS; todavia, não se afigura
suficiente para pôr termo a práticas reiteradas que, de forma insidiosa, vêm
corroendo o tecido das concelhias, erguendo barreiras onde outrora existia
convivência entre camaradas.
Como
exemplo cito: desde o final da década de noventa, o PS/Caldas tem vindo a
cultivar práticas profundamente nocivas, autênticos golpes na sua própria
estrutura, discretos por vezes, mas persistentes. O resultado, esse, impõe-se
com uma evidência quase desconfortável.
O
caso da concelhia das Caldas da Rainha assume, neste contexto, um caráter
particularmente elucidativo. Após anos marcados por expedientes dúbios e
sucessivas desordens organizativas, o partido foi sendo conduzido a um estado
de progressiva degradação, que não raro roça a ideia de desaparecimento.
Alguns
militantes, entre os quais me incluo, procuraram, com maior ou menor fôlego,
derrubar esses muros invisíveis e restituir à secção uma prática genuinamente
democrática; contudo, como ficou patente em sucessivos atos eleitorais
internos, tal intento revelou-se infrutífero. Ficou, por assim dizer, suspenso,
ou abandonado, antes de se cumprir.
Importa,
porém, sublinhar que esta realidade não se circunscreve a um caso isolado. Em
concelhos vizinhos, o Partido Socialista evidencia igualmente sinais de
fragilidade, um desgaste silencioso que se vai insinuando de forma desigual,
mas persistente, como se uma fadiga estrutural atravessasse o território sem
encontrar resistência efetiva. Não será, talvez, mero acaso, mas antes sintoma
de algo mais profundo, cuja compreensão tarda.
No
caso concreto das Caldas da Rainha, a decisão que poderá ser lida como
derradeira materializou-se na celebração de um entendimento, seguido de união,
com um movimento independente do concelho, um gesto que, longe de representar
renovação, parece ter confirmado uma trajetória já em curso.
Esse
mesmo movimento viria, aliás, a vencer as últimas eleições autárquicas,
afirmando-se, à superfície, como alternativa credível num contexto de evidente
esvaziamento partidário. Ainda assim, tal triunfo, embora politicamente
relevante, não deixa de suscitar interrogações quanto à consistência do projeto
que o sustenta.
Com
efeito, a ação desenvolvida desde então revela uma inclinação nítida para o
registo populista, assente em expedientes de rápida visibilidade e em soluções
de alcance limitado, mais orientadas para o aplauso imediato do que para a
consolidação de respostas estruturais. Há, nesses gestos, uma eficácia
superficial que, embora não deva ser ignorada, rapidamente se esgota, deixando
intocados os problemas de fundo que condicionam o desenvolvimento do concelho.
Dir-se-ia
que se privilegia o efeito em detrimento da substância, a encenação em prejuízo
da transformação real. E se tal opção pode produzir resultados no curto prazo,
não deixa de se revelar, com o tempo, um exercício estéril, incapaz de alterar
as dinâmicas demográficas, económicas e sociais que persistem, teimosamente,
inalteradas. O concelho permanece, assim, numa espécie de continuidade imóvel,
onde a aparência de mudança não corresponde a uma verdadeira renovação.
Não
é despiciendo acrescentar que o atual executivo camarário, amparado pelo que
subsiste, e é pouco, do PS/Caldas, tem investido de forma consistente na divulgação
de distinções e premiações cuja substância se revela, com frequência, efémera.
Trata-se de uma prática de exibição momentânea, quase cénica, orientada para a
criação de impacto imediato junto da população, como se bastasse proclamar
excelência para a tornar existente.
Nesse
discurso insinua-se uma narrativa de autoexaltação, “fazemos”, “somos”,
“lideramos”, repetida até à exaustão, procurando fixar uma imagem de
superioridade generalizada. Contudo, essa construção, por mais reiterada que
seja, não logra ocultar a acumulação crescente de problemas concretos, cuja
resolução permanece, na melhor das hipóteses, adiada, e, na pior, inexistente.
Entre
o enunciado e a realidade abre-se, assim, um hiato cada vez mais evidente, onde
as dificuldades se sobrepõem, discretas mas persistentes, sem que se vislumbrem
respostas à altura da sua complexidade. E é precisamente nesse intervalo, nesse
espaço entre o que se proclama e o que efetivamente se realiza, que se instala
uma sensação difusa de estagnação.
Neste
contexto, a própria ideia de futuro coletivo tende a diluir-se, substituída por
uma sucessão de iniciativas avulsas, desconexas, incapazes de gerar
continuidade ou de inspirar confiança duradoura. Não se trata apenas de uma
questão de estilo político, mas de um problema mais fundo, quase estrutural,
que se reflete na dificuldade crescente em pensar o concelho de forma
integrada.
E,
no meio deste cenário, o PS/Caldas surge como uma presença residual, esvaziada
da sua antiga capacidade mobilizadora, reduzida a uma espécie de eco longínquo
de um passado que já não se recompõe. O que subsiste não é tanto uma estrutura
viva, mas antes uma memória fragmentada, que persiste, sim, embora sem força
para se afirmar no presente, quanto mais para disputar o futuro.
Em
face do que antecede, e por mais solene, bem encenado e retoricamente vigoroso
que se apresente o XXV Congresso do Partido Socialista, dificilmente se poderá
esperar que, no curto ou mesmo no médio prazo, dele advenham efeitos
verdadeiramente regeneradores para a realidade específica do PS/Caldas. A
distância entre a afirmação programática, por mais eloquente que seja, e a
concreta capacidade de recomposição das estruturas locais permanece, de resto,
demasiado ampla para ser colmatada por impulsos congressuais, ainda que
bem-intencionados. Dir-se-ia, com alguma reserva mas não sem fundamento, que o
problema já não reside apenas na ausência de diretrizes ou de energia política,
mas numa erosão mais profunda, quase orgânica, que não se deixa inverter por momentos
de exaltação coletiva. Assim, o que à escala nacional se apresenta como
renovação poderá, no plano local, resvalar para uma irrelevância silenciosa,
incapaz de interromper o lento processo de esvaziamento que há muito se
insinua. E, nesse sentido, o congresso, por mais digno e até necessário que
seja, arrisca permanecer como um episódio de brilho transitório, sem força
bastante para alterar o destino de uma estrutura que, entre a inércia e o
desgaste acumulado, continua a revelar sinais de uma agonia prolongada.

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