Entre
os pensadores que, na contemporaneidade, se debruçaram com maior densidade e
alcance sobre a ética animal, avulta, com particular nitidez, Peter Singer
(1946-). A sua obra, vasta e insistente, gravita em torno da questão do
estatuto moral dos seres não humanos, tema que, outrora periférico, ganhou
centralidade graças, em parte, à sua intervenção teórica.
Importa,
todavia, situar essa figura num horizonte mais amplo, onde outras vozes,
distintas no tom, divergentes no fundamento, também se fazem ouvir.
Desde
logo, o próprio Singer. Em 1975, deu à estampa Libertação Animal (Animal Liberation), texto que muitos, com alguma
hipérbole, mas não sem razão, qualificam como a “bíblia” do moderno movimento
pelos direitos dos animais. A sua posição radica no utilitarismo: não é a
racionalidade, nem a linguagem, que confere relevância ética, mas antes a
capacidade de sofrer e experimentar prazer, a chamada senciência. Daqui decorre
uma tese incómoda, quase perturbadora: os interesses dos animais devem ser
ponderados em pé de igualdade com os humanos. A recusa desse princípio é, para
Singer, uma forma de preconceito, o “especismo”, termo que ele próprio ajudou a
sedimentar.
Num
registo diverso, quase em contraponto, surge Tom Regan (1938-2017). Autor de A
defesa dos direitos dos animais (The Case for Animal Rights, 1983), Regan
afasta-se do cálculo utilitarista e ancora a sua argumentação numa matriz
deontológica. Para ele, certos animais possuem valor intrínseco por serem
“sujeitos-de-uma-vida”, expressão que encerra uma densidade conceptual difícil
de reduzir. Não se trata, pois, de pesar interesses, mas de reconhecer
direitos.
Se
recuarmos no tempo, e convém fazê-lo, porque nenhuma ideia nasce ex nihilo, encontramos Jeremy Bentham
(1748-1832), figura do século XVIII, cuja intuição permanece surpreendentemente
atual. A sua célebre interrogação: “não é saber se podem raciocinar ou falar,
mas se podem sofrer”, inaugura, de certo modo, o eixo em torno do qual gravita
boa parte da discussão contemporânea. Há aqui qualquer coisa de inaugural,
quase um deslocamento silencioso do centro moral.
E
ainda, num tom mais sombrio, mais impregnado de uma metafísica da dor, Arthur
Schopenhauer (1788-1860). No século XIX, ao refletir sobre a compaixão, via no
tratamento dispensado aos animais um espelho, talvez implacável, do caráter
humano. Não é uma teoria sistemática dos direitos, mas antes um apelo ético,
quase visceral.
Assim,
se for necessário eleger uma figura axial na discussão moderna e contemporânea
acerca do estatuto moral dos animais, o nome de Peter Singer impõe-se com naturalidade.
Não por exclusividade, longe disso, mas pela amplitude da sua influência, pela
persistência das suas teses e, arrisco dizer, pela inquietação que ainda hoje
provocam.
Em
remate, e talvez como quem fecha um círculo que nunca chega verdadeiramente a
encerrar-se, importa reconhecer que a presença dos animais na vida humana não
se esgota em debates teóricos ou construções normativas. Há, nesse convívio
silencioso, uma dimensão quase terapêutica: contribuem, de forma subtil mas
persistente, para o equilíbrio psicológico, atenuando solidões, apaziguando
inquietações difusas, oferecendo uma espécie de companhia desprovida de
cálculo. E mais, ensinam, sem discurso nem doutrina, o valor de uma lealdade
desinteressada, de uma afeição que não se mede nem se negocia. Talvez seja aí,
nesse gesto simples e reiterado, que se revela algo essencial: uma lição
discreta sobre a amizade e o amor fraterno, despojados de artifício, quase,
ouso dizer, na sua forma mais pura.

Comentários
Enviar um comentário