Euclides
da Cunha (1866-1909) publica, em 1902, uma obra de singular magnitude,
verdadeira epopeia da existência sertaneja: Os
Sertões. Neste livro, o autor retrata, com rigor e mestria, os
acontecimentos da Guerra de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior do Estado
da Bahia, compondo um painel complexo e detalhado da realidade social e humana
do sertão, que se articula entre a crueza dos factos históricos e uma reflexão
quase metafísica sobre o destino coletivo.
Em
Os Sertões, manifesta-se de forma
inequívoca a visão racial prevalente na época, ao sustentar a ideia de uma
“raça superior” e ao defender o embranquecimento da população brasileira, em
consonância com o determinismo de Hippolyte Taine (1828-1893), segundo o qual o
homem é produto da confluência entre meio ambiente, a raça e o momento
histórico. Nessa perspectiva, o mestiço brasileiro é considerado inferior,
conceito que se evidencia em passagens que sublinham a instabilidade e a vulnerabilidade
das populações sertanejas. Esse determinismo ressoa com a filosofia de Gottfried
Leibniz (1646-1716) e a sua busca por uma harmonia pré-estabelecida, bem como
com certas leituras de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) sobre a
dialética histórica, na medida em que a trajetória do sertanejo se insere num
movimento inexorável entre barbárie e civilização.
Todavia,
como contribuição às ciências sociais, a obra distingue a nação entre
litorâneos e interioranos, permitindo a compreensão do Brasil por suas partes
constitutivas. Apesar de associar o litoral ao progresso político e econômico e
o interior a atraso e privação, Euclides da Cunha demonstra, na análise da
Guerra de Canudos, que ambas as regiões exibiam traços de “bárbarie”: ora pelo
fanatismo religioso de Antônio Conselheiro, ora pela repressão violenta imposta
pela República. Tal percepção aproxima-se da reflexão de Alexis de Tocqueville
(1805-1859) sobre a tensão entre liberdade e ordem social, bem como das ideias
de Montesquieu (Charles-Louis de Secondat, 1689-1755) sobre a influência
do meio geográfico e das instituições sobre o comportamento humano. Este panorama
encontra consonância no evolucionismo spenceriano[1]
e na metodologia de estudar elementos isolados para apreender o todo, evocando,
nesse ponto, o pensamento de Aristóteles (384 a. C.-322 a. C.) sobre a primazia
da análise do particular como caminho para compreender o universal.
O
livro estrutura-se em três seções: A Terra, O Homem e A Luta. Na primeira,
descreve o relevo, o clima, a fauna e a flora do Nordeste, destacando a seca
como calamidade central, como se a própria natureza conspirasse contra a
civilização nascente. Na segunda, analisa a psicologia, os costumes e a gênese
etnológica do sertanejo, concentrando-se na figura de Antônio Conselheiro,
quase como um filósofo trágico que encarna o dilema entre fé e pragmatismo,
entre destino e ação consciente. A terceira parte narra, com minúcia, a Guerra
de Canudos, abordando as quatro expedições militares, a fome, a miséria, a
peste e a violência, conjugando análise sociológica, jornalística e literária,
ao mesmo tempo em que descreve episódios individuais e coletivos, ressaltando o
fio tênue que separa o humano do inumano, o heroísmo do fanatismo, em paralelo
à reflexão nietzschiana sobre o poder e o instinto de vida[2].
O
livro Os Sertões projetou-se para
além da literatura, inspirando manifestações culturais posteriores, como o
samba homónimo de Edeor de Paula, e uma adaptação em banda desenhada, lançada
em 2010 pela editora Desiderata, com roteiro de Carlos Ferreira e ilustrações de
Rodrigo Rosa.
[1] O evolucionismo spenceriano
constitui uma concepção filosófico-sociológica formulada por Herbert Spencer
(1820-1903) no decorrer do século XIX, segundo a qual a evolução se apresenta
como uma lei universal, contínua e progressiva, aplicável não apenas aos
organismos biológicos, mas igualmente às estruturas e dinâmicas da sociedade
humana.
[2] Quando se diz “em paralelo à
reflexão nietzschiana sobre o poder e o instinto de vida”, trata-se de pensar como
Friedrich Nietzsche (1844-1900) via a vida: não apenas como adaptação a leis
externas, mas como impulso interior, força que move, vontade de se afirmar e de
criar. Enquanto Spencer olhava para a sociedade como se seguisse regras
naturais, Nietzsche focava-se no que há dentro de cada ser: o desejo, a energia
vital, a luta por existência e poder. São duas maneiras diferentes de tentar
compreender o mundo e o ser humano, mas que podem, curiosamente, conversar
entre si.
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