A
Europa teve, durante mais de dois séculos, uma maneira muito particular de
tratar a doença, o ócio e a sociabilidade: inventou as cidades termais. A partir
do século XVIII, lugares como Bath, Baden-Baden, Vichy, Karlovy Vary ou
Montecatini Terme cresceram em torno de nascentes minerais e transformaram o
tratamento numa experiência que envolvia arquitetura, jardins, hotéis, música,
passeio e vida mundana. A água estava na origem, mas à sua volta nasceu uma
verdadeira cultura. As onze cidades que integram o sítio transnacional The Great Spa Towns of Europe, inscrito
pela UNESCO em 2021, constituem alguns dos testemunhos mais expressivos desse
fenómeno.
Vidago
pertence a essa história sem possuir a escala urbana das grandes estâncias
centro-europeias. Não tem as colunatas de Karlovy Vary, a monumentalidade de
Baden-Baden ou a dimensão histórica de Bath. A sua singularidade está noutra
relação com o território: o parque, a floresta, as águas e o hotel formam um
conjunto em que a paisagem não serve de simples moldura.
O Vidago
Palace abriu as portas em 1910, concretizando uma ambição que vinha do século
XIX: criar em Vidago uma estância terapêutica de luxo com projeção para além
das fronteiras portuguesas. A escolha do lugar não era acidental. As águas de
Vidago tinham adquirido prestígio ao longo do século XIX e a estância
afirmara-se como uma das expressões mais qualificadas do termalismo de elite em
Portugal. O projeto do grande hotel correspondia, por isso, a uma conceção de
estância que associava a eficácia terapêutica das águas ao conforto, à
representação social e à presença de uma clientela de elevado estatuto.
A
inauguração ocorreu em 6 de Outubro de 1910, no dia seguinte à Revolução de 5
de Outubro que derrubara a Monarquia e instaurara a República. A coincidência
não é apenas cronológica. O edifício nascera de uma cultura política e social
ainda ligada à corte, à aristocracia e ao imaginário internacional da Belle
Époque, mas começava a funcionar quando esse mundo acabava de sofrer uma
ruptura institucional decisiva. O Vidago Palace pertence, na arquitetura e no
espírito, àquela Europa de finais do século XIX e dos primeiros anos do século
XX em que o grande hotel termal era simultaneamente lugar de tratamento,
representação e sociabilidade. A República inaugurava outro ciclo da história
portuguesa; o palácio, quase no mesmo instante, começava a receber os hóspedes
de uma sociedade que ainda trazia consigo os códigos do mundo anterior.
Aquele
mundo compreendia a temporada termal como uma experiência prolongada.
Procuravam-se, naturalmente, as virtudes das águas, mas também o passeio, a
conversa, a música, o jardim, a mesa e a convivência. Vidago não constituía uma
exceção a essa cultura: o parque, o hotel e as águas faziam parte de uma mesma
ideia de estância, na qual o tratamento se integrava numa forma de vida
temporária, afastada da rotina diária. A pessoa que chegava às termas não
procurava apenas tratamento; entrava num espaço social com os seus próprios
ritmos, rituais e códigos. É nesse contexto que se compreende a ambição do Vidago
Palace: não era um singelo hotel junto de uma nascente mineral, mas a tentativa
de construir, em Trás-os-Montes, uma estância capaz de participar da cultura
termal europeia do seu tempo.
Vidago
recebeu essa herança à sua própria escala. O palácio, rodeado pelo Parque
Termal e pela floresta, conserva a ideia de uma estância em que edifício e
paisagem se completam. A arquitetura não está simplesmente pousada sobre o
território: participa da construção de uma atmosfera. Sentimos, ali, o sabor da
antiga ambição de retirar o visitante à vida habitual e colocá-lo, durante
alguns dias ou algumas semanas, dentro de um espaço concebido para outra
cadência.
É
por isso que a intervenção de Álvaro Siza Vieira ganha um significado
particular. O arquiteto não tentou prolongar artificialmente a Belle Époque.
Não revestiu o presente com uma decoração retrospectiva. Preferiu a contenção,
a geometria, a luz e o silêncio.
Duas
piscinas, saunas, banho turco, fonte de gelo, duches de sensações, ginásio e
vinte salas de tratamento compõem um espaço de grande dimensão. Ainda assim,
não existe uma ostentação arquitetónica que dispute protagonismo com aquilo que
ali se procura. Siza parece compreender uma regra antiga, embora nem sempre
respeitada: quando a água é a matéria essencial de um lugar, a arquitetura deve
saber acompanhá-la sem a sufocar.
Assim,
Vidago aproxima-se das grandes estâncias europeias e, simultaneamente, delas se
distingue. Bath fez das termas uma cidade; Karlovy Vary construiu uma paisagem
urbana de fontes, colunatas e hotéis; Baden-Baden transformou o termalismo num
dos grandes cenários mundanos da Europa. Vidago conservou uma escala mais
íntima, em que o hotel se relaciona diretamente com o parque e a floresta
participa da identidade do lugar.
Também
o termalismo mudou. A antiga cure tinha
uma disciplina e uma duração que já não correspondem à experiência
contemporânea. Beber as águas, tomar banhos, caminhar, cumprir horários e
participar na vida social da estância constituíam uma rotina própria. Hoje
privilegia uma relação mais individualizada com o corpo, através de
tratamentos, repouso e bem-estar. Mudou o ritual, mas não desapareceu a procura
de uma pausa em relação à vida habitual.
As
águas minerais continuam no centro de Vidago. Foram elas que deram origem à
estância e estiveram na base da sua reputação terapêutica. O atual complexo
conserva essa vocação, associando as águas a tratamentos dirigidos, entre
outras áreas, às perturbações digestivas, às alergias, à asma e às enxaquecas.
O
que mais me interessa, porém, é a possibilidade de encontrar no mesmo lugar
duas conceções de excelência separadas por mais de um século. A primeira
acreditava na arquitetura como representação, na temporada como ritual social e
no hotel como cenário de uma determinada ideia de civilização. A segunda prefere
a depuração, a intimidade e uma experiência menos cerimonial do espaço. Entre
ambas permanece o parque. E, sob ambas, a nascente.
Vidago
não é uma versão portuguesa de outras termas da Europa. Participa da mesma
cultura europeia das águas, mas exprime-a através de uma paisagem própria e de
duas arquiteturas que pertencem a épocas distintas.
A
Belle Époque passou. A sociedade que frequentava aquelas estâncias pertence à
História. O termalismo encontrou outras linguagens e o turismo inventou outras
formas de evasão. A água persevera. E, ali, em Vidago, continua a ser ela a
explicar por que razão este lugar existe.

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