Não
há muito tive a grata satisfação de bebericar um café com um amigo de longa
data, pessoa que muito estimo e que não via há longos anos. O último encontro
ocorrera na cadeira “Práticas de Escrita”, ministrada pela saudosa Prof.ª Dra.
Teresa Amado (1940-2013). Depois, os afazeres profissionais foram-nos
afastando, como tantas vezes acontece entre pessoas que não romperam qualquer
laço, mas deixaram que a vida, com a sua habilidade burocrática para nos
dispersar, tratasse do resto.
Como
o encontro ocorreu, casualmente, próximo do Martinho da Arcada, era inevitável
que os nossos minutos de pasmaceira acabassem por ali.
Dos
muitos assuntos pendentes, obviamente estava a política. E ele, num tiro
certeiro, sem meias palavras, atirou-me à cara: “soube que o teu PS acabou nas
Caldas da Rainha”. O café, como sempre sem açúcar, entalou e produziu uma
espécie de curto-circuito nas cordas vocais; senti um estremecimento e um calor
excessivamente incómodo. Durante um segundo, que me pareceu bastante mais longo
do que devia, fiquei sem saber se devia rir, protestar ou simplesmente afogar
as mágoas no café aromático e denso à minha frente.
Respirei
profundamente e tentei evitar o inevitável: dizer que ele estava coberto de
razão.
Senti
o corvo de Poe a sobrevoar-nos. Respirei, outra vez, visceral e ruidosamente.
Tentei mudar de assunto. Perguntei que livro estava a ler, o que andava a fazer
por aqueles lados, ele que mudara de país porque já não suportava as
trafulhices que políticos de meia-tigela vinham plantando de norte a sul,
deixando um rasto de ruína. Não sei se foi a política, o café ou a presença
invisível de Edgar Allan Poe (1809-1849) que, por momentos, tornou o silêncio
entre nós mais eloquente do que qualquer resposta.
Ele
sorriu, como quem percebeu imediatamente a minha tentativa de evasão, mas teve
a delicadeza de não insistir. Falámos então de livros, de algumas pessoas que
entretanto desapareceram das nossas vidas, umas pela morte, outras pelas voltas
da vida profissional.
A
conversa foi correndo para outros lugares. Falámos de Portugal e do Brasil,
naturalmente, porque esses dois países que nos são tão caros possuem o estranho
costume de entrar nas conversas mesmo quando ninguém os chama. Contou-me
episódios do país onde agora vive; falei-lhe das minhas investigações, dos
arquivos, dos livros que tenho entre mãos, dessas vidas antigas que procuro em
certidões, assentos paroquiais e papéis que sobreviveram aos seus donos. Fi-lo
gargalhar em diversas passagens, como antigamente, e durante algum tempo já não
éramos dois homens que se reencontravam depois de tantos anos. Éramos
simplesmente os mesmos dois amigos de uma sala de aula, antes de a vida se
encarregar de nos distribuir por outros mapas.
Quando
nos levantámos, a tarde começava a perder aquela claridade indiferente das
horas que ainda não sabem se querem ser dia ou noite. Ficámos alguns instantes
à porta do Martinho da Arcada, prolongando sem necessidade um encontro que já
estava terminado, mas faltava ainda enviar beijos e abraços às esposas e aos
filhos. Eles, naturalmente, acabaram por ser os pontos da conversa nos trinta
minutos seguintes. Falámos das famílias de cada um com aquela ternura despojada
que nasce quando as pessoas já não têm idade para confundir intimidade com confidência.
Depois, um telefone tocou e devolveu-nos às realidades da vida.
Sem
solenidade, despedimo-nos como antigamente, com um “até breve”. Cada um retomou
o seu caminho, deixando para trás aquele estabelecimento que, há 244 anos,
acolhe conversas, encontros e reencontros, e que parece ter aprendido, ao longo
das décadas, uma das mais belas artes da convivência: agasalhar amizades e
dar-lhes uma mesa, um tempo e um lugar.

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