Durante
grande parte da minha vida, vi pessoas procurarem um lugar no mundo através
daquilo que sabiam fazer. Hoje descobriu-se outro caminho, mais rápido e
bastante mais cómodo: retirar espaço a quem já o conquistou. É a esse processo
de deslegitimação pública, pelo qual alguém procura retirar a outro
reconhecimento, autoridade ou lugar, recorrendo à exposição, à condenação e à
mobilização coletiva contra a sua pessoa, que se chama cancelamento. Tornou-se,
assim, uma curiosa forma de notoriedade por procuração, em que a pessoa que não
consegue construir uma obra encontra no nome alheio matéria suficiente para
edificar a sua própria importância.
Conheci,
ao longo de décadas de teatro, rádio, literatura e vida académica, pessoas que
trabalharam anos para conquistar alguma autoridade e outras que confundiam
notoriedade com valor. A diferença percebe-se depressa. Uma obra exige tempo,
estudo, disciplina e humildade perante aquilo que ainda não sabemos. Uma
acusação pode caber num parágrafo e chegar a milhares de pessoas antes que o
acusado compreenda sequer o que está a acontecer. Pensar demora. A indignação,
hoje, tem excelentes meios de transporte.
Não
aludo à denúncia de abusos, à crítica legítima ou ao direito de recusar apoio a
quem não merece confiança. Uma sociedade livre precisa de crítica e de
responsabilidade. Refiro-me ao momento em que a indignação deixa de procurar
esclarecer ou reparar e passa a servir de instrumento de promoção pessoal. O
fenómeno interessa-me sobretudo nesse ponto, porque revela uma velha
insuficiência humana: a dificuldade de reconhecer o mérito alheio sem o sentir
como uma diminuição própria. Quem não consegue conquistar o lugar pode tentar
desocupá-lo; quem não possui autoridade pode tentar desacreditar a autoridade
de quem a possui. Se não há obra, fabrica-se um inimigo. E a pequena política
encontra imediatamente uma ocupação.
A
educação e a cultura deveriam ensinar-nos o contrário. Uma pessoa
verdadeiramente culta sabe que o mundo é maior do que ela e que encontrará
sempre alguém melhor. Essa descoberta não a humilha. Amplia-a. O ressentimento
funciona ao contrário: transforma o talento alheio numa ofensa pessoal e procura
resolver a ofensa diminuindo quem a provoca. A insignificância não se mede
pelos diplomas, pelos livros lidos ou pela posição ocupada. Mede-se também pela
incapacidade de reconhecer grandeza sem sentir necessidade de destruir a do
outro.
A
política percebeu depressa a utilidade do mecanismo do cancelamento. O
adversário, que numa democracia deveria ser alguém a quem se responde, passa
por vezes a ser alguém que se pretende eliminar simbolicamente. E isto acontece
também dentro dos próprios partidos, onde a disputa pelo espaço, pela
influência e pela notoriedade pode transformar companheiros de percurso em
adversários a abater. Nesses casos, o cancelamento deixa de ser apenas uma arma
contra o outro lado e passa a funcionar como instrumento de uma luta interna,
em que a destruição da reputação alheia pode abrir o espaço que alguém
ambiciona ocupar. Quando esta prática se instala dentro de uma estrutura
partidária, o mecanismo acaba por voltar-se contra ela própria: inicia-se um
processo de autodestruição que corrói a confiança, fragmenta a identidade
política e pode levar a própria sigla a ser cancelada pela população pensante,
não por imposição dos adversários, mas pelo juízo de quem deixa de reconhecer
nela uma cultura política digna de ser representada.
Por
isso, ainda prefiro a velha discussão, aquela em que duas pessoas podiam sair
zangadas de uma sala e reencontrar-se dias depois sem exigir a expulsão uma da
outra do mundo. Aprendi na arte, nos bancos académicos e confirmei pelo acúmulo
de experiência de vida, que a palavra ganha dignidade quando admite resposta. O
erro pode ser corrigido, a mentira desmontada, a injustiça denunciada, a ideia
combatida. Destruir a pessoa é muitas vezes a solução mais preguiçosa, porque
nos poupa ao trabalho de responder ao que ela disse. A cultura e a educação,
quando merecem esses nomes, deveriam permitir-nos admirar sem submissão,
discordar sem ódio e reconhecer o talento alheio sem sentirmos que ficámos com
menos espaço.
No
fim, continuo a distinguir aqueles que querem ser lembrados pelo que
construíram daqueles que precisam de ser lembrados pelo que conseguiram
destruir. Uns deixam uma obra; os outros ficam dependentes do nome que tentaram
apagar. E existe nessa dependência uma ironia perfeita: quem passa a vida a cancelar
os outros acaba por viver à sombra daqueles que pretendia eliminar.
O
mérito constrói espaço. O ressentimento tenta ocupá-lo.
Considero
que o cancelamento, quando transformado em expediente de ascensão, é o recurso
dos insignificantes: ninguém realmente excepcional precisa de destruir a
grandeza alheia para provar que existe.

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