Há
encontros que a história recusa, mas que o espírito, esse, mais livre e mais
insinuante, persiste em conjeturar. Entre eles, avulta o possível diálogo entre
Eça de Queirós e Victor Hugo, duas consciências literárias de primeira
grandeza, tangentes no tempo, embora nunca verdadeiramente coincidentes.
Victor
Hugo, nascido em 1802, cedo se afirmou como um dos pilares do romantismo
europeu. Quando Eça veio ao mundo, já o autor de Les Misérables se erguia como uma figura quase tutelar, não apenas
das letras francesas, mas de uma certa ideia de intervenção moral e cívica.
Havia na sua escrita um fôlego vasto, uma inclinação para o sublime, para a
exaltação das paixões e das injustiças humanas em escala quase monumental.
Eça,
surgido décadas mais tarde, inscreve-se num outro horizonte. A sua pena, mais
contida, embora não menos incisiva, afasta-se do arrebatamento romântico e
aproxima-se de uma observação lúcida, por vezes mordaz, da realidade social.
Onde Hugo amplifica, Eça depura; onde um eleva, o outro disseca. Não se trata
de oposição frontal, mas de uma diferença de temperamento, de cadência, quase
de respiração estética.
E,
todavia, entre ambos subsiste um fio discreto, raramente sublinhado, Eça foi,
de facto, um admirador de Victor Hugo. Reconhecia-lhe a estatura, a força
imaginativa, a capacidade de comover e mobilizar consciências. Essa autenticação,
porém, não implicava imitação servil, antes uma espécie de reverência crítica.
Paris,
essa cidade tantas vezes erigida em encruzilhada de destinos, poderia ter sido
o cenário de um encontro. Eça aí viveu, no exercício das suas funções
diplomáticas; Hugo aí terminou os seus dias, já consagrado como um ícone
nacional. A proximidade espacial sugere possibilidades, quase as encena.
Imagina-se uma intersecção fugaz, um aceno, talvez uma troca de palavras, mas
nada disso, ao que se sabe, encontrou registo. A história, nesse ponto,
permanece silenciosa.
E
é nesse mutismo que reside, talvez, o seu maior interesse.
Porque
nem todos os diálogos exigem presença física. Há afinidades que se desenham à
distância, tensões que se constroem sem contato direto. Hugo, com a sua chama
romântica ainda fulgurante; Eça, com o olhar já voltado para a análise crítica
do mundo burguês, ambos participam de uma mesma tradição, ainda que em momentos
distintos do seu desenvolvimento.
Assim,
sabe-se que não foram amigos. Ter-se-ão cruzado em algum evento parisiense? É
pouco provável. Não foram, contudo, estranhos. Entre eles existiu, se não uma
relação, pelo menos uma consciência mútua, ainda que assimétrica, feita de
leitura, de admiração e, quem sabe, de uma certa distância deliberada.
E
nós, leitores tardios, permanecemos nesse intervalo, escutando, quase em
surdina, duas vozes que nunca se cruzaram, mas que, de algum modo, continuam a
dialogar.
E
talvez resida aqui uma conclusão simples, quase inevitável, ainda que raramente
assumida com a devida clareza: todos, sem exceção, deveriam ler Eça de Queirós
e Victor Hugo. Não por dever académico, nem por mera reverência canónica, mas
porque, em cada um deles, a literatura atinge uma forma rara de plenitude, ora
expansiva, quase torrencial, ora contida, mas de uma precisão cortante. Ler
Hugo é confrontar-se com a vastidão do humano; ler Eça é reconhecer-se, por
vezes com desconforto, no espelho lúcido da sociedade. E entre um e outro,
nesse intervalo fértil, descobre-se algo que dificilmente se repete: o melhor
que a tradição literária europeia soube oferecer.


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