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Caldas Sport Clube – 110 anos

Faz este ano exatamente quinze anos que surgiu uma conversa com algumas pessoas ligadas ao Caldas Sport Clube sobre a escrita da história da instituição por ocasião do seu centenário, comemorado, como é sabido, em 2016.

A reunião decorreu sob aquela solenidade enternecedora, por vezes quase litúrgica, que tantas vezes caracteriza as instituições portuguesas de longa duração: muito entusiasmo sentimental, alguma retórica sobre a “grandeza histórica do clube”, meia dúzia de memórias épicas envolvendo jogos disputados sob chuva torrencial e, inevitavelmente, a convicção quase metafísica de que “a história não pode perder-se”. Concordei inteiramente. O problema começou quando a História deixou de ser abstração patriótica e passou a exigir aquilo que sempre exige quando levada a sério: arquivos, jornais antigos, deslocações, catalogação documental, entrevistas, fotografias, cruzamento de fontes, noites perdidas e uma paciência quase beneditina, dessas que hoje já só se encontram em arquivos conventuais ou em investigadores com vocação de resistência civil.

Convém recordar que escrever seriamente a história de um clube centenário não consiste em reunir duas fotografias amareladas, três recortes de jornal e algumas anedotas alcoólicas de antigos dirigentes. Isso produz folclore; não historiografia. Um verdadeiro trabalho de investigação desportiva aproxima-se frequentemente mais da arqueologia do que da crónica. Há atas desaparecidas, resultados contraditórios, jogadores cuja própria existência parece oscilar entre a memória oral e a lenda suburbana. Em Portugal, aliás, possuímos o singular talento de venerar instituições antigas enquanto destruímos, com igual eficácia, os seus próprios arquivos.

Foram então discutidos dois pontos essenciais: o custo da investigação e a possibilidade de o volume ficar concluído a tempo das comemorações do centenário.

O projeto não avançou.

A bagatela pedida pelo extenuante trabalho de pesquisa, escrita e organização documental foi considerada excessiva. Achei o episódio curioso, embora não propriamente surpreendente. Entre nós, continua a persistir a antiga convicção, de sabor quase medieval, de que o investigador vive sobretudo de ar, café requentado e vocação apostólica. O intelectual permanece, em certos meios, uma espécie de frade mendicante laico, munido de máquina de escrever e paciência infinita.

Ainda ouvi, mais tarde, que outro investigador teria sido contatado porque “o preço dele era bastante melhor”. A frase ficou-me na memória pela sua involuntária beleza económica. Recordou-me imediatamente Diógenes Laércio (200-250) narrando disputas entre filósofos gregos, embora aqui com menos metafísica e mais contabilidade de mercearia. Imagino Sócrates (470 a. C.-399 a. C.) sendo informado de que havia um sofista disposto a ensinar ética por metade do preço, com desconto de campanha incluído e recibo passado na hora.

Entretanto, passaram quinze anos.

Mudaram direções, sucederam treinadores, desfilaram jogadores, ocorreram alegrias e desilusões, assembleias gerais intermináveis e aquele tipo de dramatismo clubístico que transforma uma derrota caseira numa crise civilizacional comparável à queda de Constantinopla. O futebol possui essa estranha grandeza caricatural: um clube pode perder por três bolas a zero e, ainda assim, alguns adeptos caminham pelas ruas com a gravidade de senadores romanos após Canas (216 a. C.), como se regressassem de um desastre histórico irreparável.

Hoje, decorridos 110 anos sobre a fundação do Caldas Sport Clube, assinalada a 15 de maio, continua por publicar uma obra verdadeiramente sólida, crítica e abrangente sobre a instituição. E isso é pena.

Porque um clube não é apenas uma sociedade desportiva. Sobretudo nos meios de província, é também memória urbana, sociabilidade, ascensão social, liturgia popular e autobiografia sentimental de gerações inteiras. Durante décadas, quantos namoros começaram nas bancadas? Quantas amizades sobreviveram graças a noventa minutos de sofrimento comum? Quantas pessoas aprenderam geografia emocional através de deslocações futebolísticas a campos improváveis do país, onde a chuva e o barro parecem sempre fazer parte do regulamento não escrito do jogo?

Os clubes antigos acabam frequentemente por funcionar como pequenas pátrias locais. Possuem genealogias, mitologias, mártires, heróis e até episódios fundadores contados com fervor quase homérico. Há golos recordados com mais nitidez do que certos acontecimentos políticos nacionais. Um avançado que marcou decisivamente num domingo chuvoso de fevereiro pode permanecer décadas na memória popular, enquanto ministros desaparecem silenciosamente nos rodapés da História.

E contudo, paradoxalmente, Portugal preserva mal a memória do seu desporto. Conservamos estátuas, mas perdemos arquivos; celebramos efemérides, mas esquecemos documentos; inauguramos placas, enquanto fotografias, atas, correspondência e jornais acabam devorados pela humidade ou pelo desinteresse burocrático. Às vezes suspeito que o mofo é o verdadeiro ministro da Cultura português e, em certas latitudes autárquicas, também a sua discreta sombra administrativa.

Talvez ainda venha a existir, um dia, uma verdadeira História do Caldas Sport Clube: extensa, rigorosa, documentada, atravessando presidentes, atletas, crises financeiras, glórias efémeras e tardes épicas no Campo da Mata. Um livro onde apareçam, com justiça e minúcia, os nomes de tantos jogadores que deram ao clube parte considerável da sua juventude física e emocional.

Porque as instituições sem memória acabam por envelhecer duas vezes: primeiro na matéria, depois no esquecimento.

E eu não esqueço, apesar de tudo, parabéns Caldas Sport Clube. Os primeiros 110 anos de uma eternidade.

 

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