Quando
Hegel (1770-1831) escreveu que a coruja de Minerva só levanta voo ao
entardecer, deixou uma observação que continua a atravessar os séculos com
desconfortável atualidade. A compreensão chega tarde. Primeiro vivemos os
acontecimentos; apenas depois tentamos entendê-los. A lucidez raramente
acompanha os factos. Surge quando estes já se instalaram no dia-a-dia e
começaram a moldar silenciosamente os hábitos, as expectativas e os receios de
uma sociedade. É isso que acontece hoje em Portugal.
Há
muito que se instalou a sensação de que qualquer coisa não bate certo. Não se
trata de uma crise súbita, nem de uma catástrofe facilmente nomeável. É antes
uma inquietação difusa, uma espécie de desalinhamento entre aquilo que o país
promete e aquilo que oferece a quem nele vive. Essa sensação está por todo o
lado, embora raramente assuma a mesma forma. Basta olhar à volta.
Os
cafés continuam cheios. As esplanadas também. O sol cai sobre as fachadas exatamente
como há cinquenta anos. Os turistas, aqueles que enchem praças e ruas
históricas enquanto passam apressadamente diante de museus quase vazios,
percorrem cidades e vilas encantados com aquilo que vêem. E têm razões para isso.
Poucos países conjugam com tanta harmonia património, clima, gastronomia e
paisagem.
Contudo,
a beleza tem limites. Pode inspirar poetas, atrair visitantes e alimentar
campanhas publicitárias. O que dificilmente consegue fazer é pagar rendas,
reduzir prestações bancárias ou compensar salários que permanecem entre os mais
modestos da Europa Ocidental. É aqui que começa a contradição.
Portugal
tornou-se um país onde muitos preços parecem pertencer a uma economia muito desenvolvida,
enquanto uma parte significativa dos rendimentos continua a pertencer a outra
realidade. A discrepância deixou de ser apenas um dado estatístico.
Transformou-se numa experiência igual para a maioria. Está presente nas conversas
familiares, nos projetos adiados, nas contas feitas à pressa no final do mês e
naquela pergunta, repetida até à exaustão, sobre o motivo pelo qual tantos
jovens continuam a procurar no estrangeiro aquilo que não encontram no lugar
onde nasceram.
Não
se trata de pessimismo. Muito menos de uma inclinação para o lamento permanente.
Trata-se apenas de olhar à volta sem os filtros da propaganda e sem os
entusiasmos artificiais da retórica política.
Por
vezes, quase tudo parece funcionar melhor na fotografia do que na experiência
concreta.
A
observação pode parecer injusta, mas é difícil ignorá-la. O país apresenta-se
ao mundo com notável competência. Vende uma imagem de tranquilidade,
hospitalidade e prosperidade serena. Porém, entre a imagem e a substância
abre-se frequentemente uma distância considerável. Um abismo.
Intriga-me
a persistência de uma certa vaidade popular. Não falo de orgulho legítimo, que
todas as comunidades necessitam para sobreviver. Refiro-me a algo diferente.
Àquela suscetibilidade imediata que emerge sempre que alguém aponta
fragilidades evidentes. Como se o simples reconhecimento dos problemas
constituísse uma forma de deslealdade. A atitude não é nova.
Eduardo
Lourenço (1923-2020), que passou boa parte da vida a pensar Portugal,
compreendeu a profundidade dessa singularidade. Percebeu que os portugueses
oscilam frequentemente entre dois extremos: a exaltação e o desencanto. Num
momento convencem-se da sua excepcionalidade histórica; no seguinte concluem
que tudo está perdido. Entre uma coisa e outra raramente encontram o equilíbrio
necessário para olhar a realidade com serenidade. Entretanto, a veracidade continua
o seu caminho, indiferente às nossas ilusões.
Os
serviços públicos acumulam fragilidades. O acesso à habitação tornou-se uma
preocupação estrutural. O envelhecimento demográfico agrava-se. Uma parte
significativa da população vive numa permanente ginástica financeira para
evitar que uma despesa inesperada desorganize por completo o orçamento
familiar.
Apesar
disso, continuam a surgir discursos impregnados de grandeza histórica, como se
a evocação do passado pudesse substituir a resolução dos problemas do presente.
É
curioso observar a frequência com que os portugueses regressam à ilusão do mar.
Nenhum outro elemento ocupa lugar tão central no imaginário lusitano. Durante
séculos, foi ele que permitiu ultrapassar as limitações de um território
pequeno e periférico. Quando a geografia parecia insuficiente, bastava olhar
para o horizonte. O mar transformava-se em promessa. Mas os desafios
contemporâneos não se resolvem através da nostalgia.
As
caravelas pertencem à História. O preço da habitação pertence ao presente. As
glórias marítimas fazem parte da memória nacional. A estagnação salarial
pertence à experiência diária. Confundir uma coisa com a outra é um exercício
de evasão, não uma estratégia de futuro.
José
Ortega y Gasset (1883-1955) advertiu repetidamente para os perigos das
sociedades que procuram responder aos desafios do seu tempo com categorias
herdadas de épocas diferentes. A observação conserva toda a pertinência. Nenhum
país progride apoiando-se exclusivamente nas suas recordações. A memória é
indispensável, mas não substitui a imaginação política, o realismo económico
nem a capacidade de adaptação. É precisamente nestes pontos que o debate
público parece empobrecer.
Em
vez de se discutir com profundidade as causas estruturais das dificuldades
existentes, prefere-se muitas vezes procurar explicações simples para problemas
complexos. A tentação não é nova. Ao longo da História, sempre que uma
sociedade atravessou períodos de ansiedade, surgiram vozes dispostas a oferecer
culpados facilmente identificáveis. Hoje, em muitos casos, esse papel é
atribuído aos imigrantes.
O
fenómeno merece reflexão porque revela uma das contradições mais evidentes do
nosso tempo. Portugal envelhece. A natalidade permanece baixa. Milhares de
jovens continuam a emigrar. Em numerosos setores, da agricultura à construção
civil, dos cuidados pessoais à hotelaria, uma parte substancial da atividade
económica depende já de trabalhadores estrangeiros.
Os
factos são conhecidos. O que nem sempre é reconhecido é a conclusão inevitável
que deles decorre. Portugal necessita dessas pessoas. Precisa delas para
trabalhar, para produzir riqueza, para sustentar áreas fundamentais da economia
e, em certa medida, para compensar desequilíbrios demográficos que se agravam
de ano para ano.
Reconhecer
esta realidade exigiria uma conversa adulta. E estas raramente produzem
manchetes estridentes. O medo produz. Sempre produziu.
A
filosofia conhece bem essa dinâmica. Thomas Hobbes (1588-1679) compreendeu o
papel central do receio na organização das sociedades humanas. Hannah Arendt
(1906-1975), séculos mais tarde, analisou os mecanismos através dos quais a
insegurança geral pode ser instrumentalizada por discursos simplificadores.
Ambos perceberam algo essencial: uma comunidade governada pelo medo acaba
frequentemente por perder a capacidade de distinguir entre ameaças reais e
fantasmas imaginários. A certa altura já não combate problemas. Combate
símbolos.
E
os símbolos possuem uma característica particularmente perigosa. Nunca
desaparecem por completo. Mudam de nome, de rosto e de circunstância, mas
regressam sempre que alguém necessita deles. O verdadeiro risco do nosso tempo.
Não
a pobreza. Não a imigração. Nem sequer a permanente turbulência política que
parece acompanhar as democracias contemporâneas. O perigo maior talvez seja
outro: habituarmo-nos a interpretar todas as questões através da lente do medo.
Porque este não resolve aquilo que o provoca. Limita-se a ocupar espaço. Instala-se
lentamente na linguagem pública, infiltra-se nas instituições, condiciona o
debate e acaba por transformar problemas complexos em narrativas simplistas.
Quando isso acontece, a lucidez torna-se a primeira vítima. E sem ela nenhuma
sociedade consegue decidir o que pretende ser.
Essa
questão que continua em aberto. Não saber se Portugal foi grande ou pequeno,
rico ou pobre, glorioso ou periférico. A pergunta verdadeiramente importante é
outra: terá o país a coragem de olhar para si próprio sem os filtros da
nostalgia e sem as distorções do medo?
A
resposta, como diria Hegel, talvez só chegue ao entardecer.

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