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O homem que desceu ao subsolo

Quando regresso às páginas de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), o que encontro não é apenas o antigo funcionário público de São Petersburgo, sem nome, que se retirou da vida e passou a habitar o território da própria consciência. Deparo-me com uma voz que conhece demasiado bem os caminhos do ressentimento, da humilhação e do orgulho, uma voz que transforma cada lembrança numa nova disputa e cada gesto numa matéria para intermináveis acertos de contas. É difícil permanecermos inteiramente à margem daquele homem, porque o seu subterrâneo é feito de coisas demasiado humanas: aquilo que não dissemos, as respostas que chegámos tarde demais a encontrar, as pequenas humilhações que o tempo não conseguiu apagar.

Memórias do Subterrâneo, publicado em 1864, divide-se em duas partes. Na primeira, “O Subterrâneo”, o narrador entrega-se a um longo monólogo em que pensamento, ressentimento e consciência se confundem até ao ponto de já não sabermos onde termina a lucidez e começa a própria doença de pensar. O homem reflete até ao ponto em que deixa de agir. Cada possibilidade abre outra possibilidade, cada decisão traz consigo uma objeção, cada impulso é imediatamente submetido ao exame da razão. Dostoiévski escrevia contra uma época que depositava uma confiança crescente na razão, no progresso e na possibilidade de compreender racionalmente o comportamento humano. O seu narrador responde com uma provocação que continua atual: o homem pode escolher aquilo que lhe faz mal, contrariar o próprio interesse e até procurar o sofrimento para demonstrar que a sua vontade não obedece a nenhuma fórmula. A liberdade, quando se reduz à capacidade de dizer não, acaba por deixar o homem exatamente onde estava.

Na segunda parte, “A Propósito da Neve Derretida”, o pensamento desce à experiência. O narrador reencontra, através da memória, os antigos colegas de escola e revive o desejo de ser reconhecido por homens que simultaneamente admira e despreza. Num jantar, procura afirmar uma superioridade que ninguém lhe reconhece e transforma uma ocasião banal numa sucessão de vexames. Conhecemos este mecanismo, ainda que em proporções menos ferozes: uma palavra esquecida por quem a pronunciou pode manter-se durante anos na lembrança de quem a recebeu. O acontecimento acaba, mas a pessoa continua a vivê-lo, acrescentando-lhe respostas que não deu e significados que o tempo foi tornando mais pesados.

É neste terreno de orgulho ferido que surge Liza. O narrador fala-lhe da vida que leva, da dignidade, do sofrimento e da possibilidade de uma existência diferente. Liza leva a sério as suas palavras e procura-o. Quando a aproximação deixa de ser uma fantasia e se transforma numa possibilidade concreta de afeto, ele recua e humilha-a. A cena é particularmente dura porque ele sabe o que está a fazer. Conhece a própria crueldade enquanto a pratica. A consciência, tantas vezes apresentada como a sua grande superioridade, não o torna melhor. Apenas lhe permite assistir, com uma lucidez devastadora, àquilo que está a fazer.

Neste ponto, a novela toca numa verdade humana difícil de contornar: conhecer-nos não basta. Podemos reconhecer o nosso orgulho e continuar orgulhosos; compreender o ressentimento e continuar ressentidos; saber que estamos a ferir alguém e, ainda assim, feri-lo. O conhecimento de nós próprios não traz automaticamente a mudança. Pode até fornecer novas razões para permanecermos exatamente como somos.

O regresso ao “subterrâneo” adquire então outro sentido. O narrador volta ao lugar onde ninguém o pode humilhar porque ninguém entra verdadeiramente nele. Mas esse abrigo tem um preço: também não entra ali o afeto, nem o risco de uma relação, nem a possibilidade de uma vida diferente. A sua liberdade tornou-se estéril. Quer aproximar-se dos outros e repele-os; deseja ser reconhecido e despreza quem o reconhece; quer agir e refugia-se na reflexão. O orgulho protege-o precisamente daquilo de que mais necessita.

Dostoiévski antecipou, nesta pequena novela, algumas das grandes inquietações que viriam a marcar o pensamento existencialista: a liberdade, a angústia, a responsabilidade, a solidão e o confronto do indivíduo com uma vida que não pode ser reduzida a qualquer sistema racional. Mas o que torna o homem do subterrâneo memorável não é apenas a filosofia que a sua voz transporta. É a sua humanidade contraditória, incómoda e por vezes mesquinha. Ele não nos permite a confortável distância de quem observa um estranho. Obriga-nos a reconhecer os mecanismos através dos quais a lucidez pode transformar-se em isolamento e o orgulho numa maneira de fugir à própria vida.

Quando fechei o livro, aquela voz não desapareceu imediatamente. Ficou a trabalhar na memória. O homem continua no seu quarto, preso às suas recordações e às suas razões, enquanto a vida decorre do outro lado da porta. O que me fica de Dostoiévski é a imagem de alguém que construiu, com a matéria da própria consciência, uma porta que depois já não soube abrir.

 

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