Uma
eleição presidencial é sempre um exercício de memória. O presente chega à urna
acompanhado daquilo que um país viveu, das promessas que cumpriu, das que
deixou pelo caminho e das feridas que ainda não conseguiu fechar. No Brasil de
2026, a candidatura de Luiz Inácio Lula
da Silva apresenta-se sob o signo da continuidade. Para os seus apoiantes,
essa continuidade não significa simplesmente prolongar um mandato presidencial.
Significa preservar uma determinada concepção do Estado e da sociedade, fundada
na redução da pobreza, na valorização do trabalho, na proteção social, na
defesa dos direitos humanos e na recuperação de uma estabilidade institucional
que os últimos anos submeteram a uma tensão excepcional. O desgoverno de Jair
Bolsonaro deixou feridas profundas no Brasil, que se fizeram sentir em
praticamente todos os campos da vida pública, da proteção social às políticas
de saúde, da defesa do ambiente aos direitos dos povos indígenas, da igualdade
racial à própria relação entre o poder político e as instituições democráticas.
A continuidade que os seus defensores atribuem a Lula nasce também da
necessidade de reparar parte desse legado, reconstruindo políticas públicas,
restabelecendo compromissos institucionais e devolvendo ao Estado uma
responsabilidade social que, durante aquele período, foi objeto de uma profunda
contestação.
É
preciso lembrar, ainda, que o Brasil é uma federação e que cada Estado possui o
seu Governador, a sua Assembleia Legislativa e um conjunto próprio de
estruturas e competências administrativas. As orientações políticas dos
governos estaduais podem aproximar-se ou afastar-se significativamente das
políticas adotadas pelo Governo Federal, produzindo diferenças concretas na
forma como são enfrentadas questões como a desigualdade social, a segurança
pública, a saúde, a educação, a proteção ambiental e os direitos humanos.
Quando essas orientações se aproximam de uma agenda política de extrema-direita,
como sucede em setores ligados ao bolsonarismo, podem surgir tensões profundas
com as políticas federais de carácter social e inclusivo defendidas pelo
Governo Lula. O Brasil não navega, portanto, necessariamente nas mesmas águas
em todos os seus Estados, e essa fragmentação política ajuda a explicar a
persistência de desigualdades e de respostas muito diferentes aos mesmos
problemas nacionais.
Os
números económicos constituem uma primeira matéria de reflexão. No segundo
trimestre de 2026, o IBGE registou uma taxa de desemprego de 5,4%, inferior aos
5,8% observados no período homólogo de 2025. A subutilização do trabalho
situou-se em 12,9%. São indicadores que não autorizam triunfalismos, porque o
Brasil continua a enfrentar desigualdades profundas, dificuldades fiscais,
problemas de produtividade e diferenças regionais consideráveis. Permitem,
contudo, reconhecer uma evolução positiva do mercado de trabalho durante o atual
mandato.
A
economia, porém, não pode ser reduzida à sua dimensão estatística. Um país pode
apresentar bons indicadores macroeconómicos e continuar a produzir exclusão. É
por isso que a fome permanece uma questão política de primeira grandeza. A
edição de 2026 do mapa mundial da fome da FAO utiliza os dados mais recentes
disponíveis, relativos ao período 2023-2025, e acompanha a evolução da
subalimentação e da insegurança alimentar. O Brasil deve ser lido dentro desse
quadro internacional, sem apropriações propagandísticas de uma realidade que é
demasiado séria para caber num slogan.
O
combate à pobreza encontra uma expressão concreta no Bolsa Família. Em junho de
2026, o programa alcançava mais de 19,34 milhões de famílias, cerca de 50,1
milhões de pessoas. Em setembro, o Governo anunciou a atualização do valor
mínimo do benefício, com efeitos a partir de outubro, procurando acompanhar a
inflação acumulada desde a retoma do atual modelo, em 2023. Para uma
estatística, são milhões de beneficiários; para uma família em situação de
vulnerabilidade, podem ser alimentos, transporte, material escolar,
medicamentos, alguma margem para atravessar o mês. A distância entre o número e
a vida é rigorosamente onde uma política social encontra a sua genuína medida.
É
aqui que os direitos humanos deixam de ser uma fórmula de tratados
internacionais e entram na matéria áspera da existência. Direito à alimentação,
à saúde, à educação, à habitação, ao trabalho, à igualdade e à dignidade não
são compartimentos estanques. Formam uma arquitetura moral e jurídica sem a
qual a democracia corre o risco de permanecer apenas formal. A liberdade
política perde densidade quando a liberdade de escolher não encontra
correspondência mínima nas condições de viver.
A
política indígena oferece outro campo particularmente revelador. A criação do
Ministério dos Povos Indígenas, em 2023, conferiu estrutura ministerial própria
a uma questão que durante décadas ocupou uma posição secundária na
administração federal. Até 2026, o Governo contabilizava vinte Terras Indígenas
homologadas, vinte e uma declaradas e trinta e uma reservas constituídas. Em maio
de 2026 foi ainda criada uma nova disciplina administrativa para acelerar a
transferência de terras públicas federais destinadas à posse e ao usufruto de
comunidades indígenas.
A
importância destas medidas ultrapassa a questão fundiária. Para os povos
indígenas, território significa língua, cultura, memória, espiritualidade,
continuidade comunitária e possibilidade de existência coletiva. Uma terra
demarcada não é apenas uma superfície delimitada por coordenadas
administrativas. É o espaço onde uma comunidade pode continuar a ser aquilo que
é. A própria política governamental passou a relacionar a demarcação
territorial com a preservação ambiental e a resposta à crise climática.
A
defesa dos direitos humanos passa também, necessariamente, pela igualdade
racial. A Lei n.º 14.723/2023 atualizou a Lei de Cotas e passou a incluir os
estudantes quilombolas entre os grupos abrangidos pelas reservas de vagas nas
instituições federais de ensino superior, introduzindo ainda alterações nos
critérios de acesso e na assistência estudantil. Numa sociedade cuja história
foi profundamente marcada pela escravatura e pelas desigualdades que dela
sobreviveram, a igualdade perante a lei não esgota a questão da igualdade
social. A política pública procura, neste caso, intervir precisamente sobre uma
desigualdade histórica.
Também
a proteção ambiental se cruza com os direitos humanos. A Amazónia não é um
território vazio, disponível para ser convertido numa abstração económica ou
ambiental. É floresta, mas é também território habitado; é biodiversidade, mas
é igualmente cultura, trabalho, memória e pertença. A política indígena do atual
Governo colocou a demarcação territorial dentro da agenda climática brasileira,
estabelecendo uma relação que durante muito tempo foi tratada como periférica.
Existe,
por fim, uma dimensão institucional que nenhuma reflexão sobre o Brasil
contemporâneo deveria relegar para uma nota de rodapé. O país atravessou uma
polarização política de grande intensidade, cujo episódio mais grave foi a
invasão e depredação das sedes dos três poderes, em Brasília, a 8 de Janeiro de
2023. A defesa da continuidade de Lula inclui, para os seus apoiantes, a defesa
de uma democracia na qual o resultado eleitoral é reconhecido, as instituições
exercem as suas competências e a divergência política permanece dentro das
regras constitucionais. Essa defesa não dispensa a crítica ao Governo. Pelo
contrário, uma democracia digna desse nome vive da possibilidade permanente de
escrutinar quem exerce o poder.
Os
direitos humanos, aliás, não pertencem a Lula, ao Partido dos Trabalhadores ou
a qualquer outro partido. Pertencem às pessoas. Um Governo que proclama
defendê-los deve ser avaliado precisamente quando esses direitos colidem com
interesses económicos, estruturas de poder, violência, conflitos fundiários ou
conveniências políticas. É nessa zona menos confortável, longe da retórica
eleitoral, que uma política de direitos humanos demonstra a sua consistência.
Lula
traz consigo uma circunstância que nenhum adversário pode apagar e que nenhum
admirador deveria transformar em culto: uma longa participação na história
política brasileira. Do sindicalismo à Constituinte, das primeiras candidaturas
presidenciais aos mandatos no Palácio do Planalto, da injusta interrupção da
sua trajetória política ao regresso à Presidência em 2023, a sua biografia acompanha
uma parcela considerável da história democrática do Brasil. Essa longevidade
pode ser entendida como experiência acumulada ou como expressão de uma
excessiva centralidade pessoal na vida política. São interpretações
pertencentes ao debate público. O percurso histórico, esse, mantém-se.
Defender
a continuidade de Lula não exige, portanto, fechar os olhos às insuficiências
do seu Governo. O Brasil continua a conviver com violência, desigualdade,
pobreza, conflitos ambientais e falhas na prestação de serviços públicos. A
distância entre os direitos proclamados e os direitos efetivamente usufruídos
continua a ser grande. Um Governo que se apresenta como defensor da dignidade
humana deve ser confrontado justamente com essa distância.
A
continuidade ganha, por isso, um significado que ultrapassa a permanência de um
homem no Palácio do Planalto. Para os seus apoiantes, representa a
possibilidade de aprofundar uma concepção de Brasil em que o desenvolvimento
económico não seja separado da justiça social, em que a proteção dos mais
vulneráveis seja uma responsabilidade permanente do Estado, em que os direitos
dos povos indígenas tenham expressão territorial e política, em que a igualdade
racial seja acompanhada por medidas concretas e em que a democracia não seja
apenas o mecanismo utilizado para chegar ao poder, mas também o princípio que
limita o próprio poder.
Não
é preciso transformar Lula numa figura acima da crítica para reconhecer a
dimensão histórica da escolha que a sua candidatura representa. O seu percurso
político, as políticas que promoveu e as instituições que reconstituiu ou
reforçou constituem uma matéria concreta de avaliação. O combate à pobreza, a
valorização do trabalho, o Bolsa Família, a política indígena, a igualdade
racial, a defesa dos direitos humanos e a proteção das instituições
democráticas podem ser discutidos, medidos e contestados. É justamente porque
podem ser confrontados com a realidade que deixam de ser apenas palavras.
A
imagem que fica desta eleição é a de um país imenso diante de uma urna pequena.
Dentro dela cabem quatro anos de decisões, mas também uma parte da memória
brasileira, com as suas esperanças, as suas feridas e aquilo que ainda não
conseguiu reparar. Lula chega a esse momento trazendo consigo uma história que
já pertence ao Brasil. O voto, porém, pertence a cada cidadão. E entre a
história de um homem e o gesto breve de assinalar um nome mantém-se o espaço
onde uma democracia se reconhece: o da escolha individual, feita diante de uma
memória coletiva que nenhum eleitor recebe intacta e que nenhuma geração pode
deixar de interrogar.
Dito
isto, resta-me apenas uma certeza pessoal: o meu voto será em Lula da Silva. É
uma escolha consciente, formada pela minha leitura da história recente do
Brasil, das políticas públicas em causa, das feridas que permanecem abertas e
do significado que atribuo à continuidade democrática. Não pretendo transformar
essa escolha numa verdade para os outros, nem acredito que uma democracia se
faça de unanimidades. O voto pertence a cada cidadão, e é precisamente essa
liberdade de escolher, de discordar e de assumir as consequências da própria
escolha que lhe dá sentido. O meu voto será, pois, em Lula da Silva, com a
convicção de quem olha para o Brasil não apenas através do presente, mas também
da memória daquilo que viveu e da esperança daquilo que ainda pode reconstruir.
Luz
e Paz!

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