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O silêncio sobre Saramago

A recente controvérsia em torno de José Saramago não nasce de nenhuma descoberta literária inesperada, nem de um manuscrito perdido que viesse, de súbito, reacender o seu nome. Não, é algo bem mais terreno, quase burocrático à primeira vista. E, no entanto, curioso… porque é precisamente nesses lugares aparentemente técnicos que se decide, sem grande alarido, o que permanece e o que se esbate na memória de um povo.

Nos últimos dias, começou a circular a notícia de que os livros de Saramago poderão deixar de ser obrigatórios no 12.º ano, na disciplina de Português. A reação foi imediata, quase instintiva. Houve indignação, perplexidade, alguma confusão à mistura, o habitual, talvez. Mas convém abrandar um pouco, respirar, olhar melhor: não há, para já, decisão final. Trata-se de uma proposta, ainda em consulta pública, integrada na revisão das chamadas Aprendizagens Essenciais. Ou seja, o cenário está em aberto, embora já suficientemente exposto para gerar desconforto.

O que está em causa não é, propriamente, um apagamento. Saramago não desaparece, seria, aliás, difícil imaginá-lo a desaparecer assim, por decreto. O que se propõe é algo mais subtil: deixar de ser leitura obrigatória e passar a integrar um leque de opções. Ao lado de outros autores, outras vozes, outras formas de dizer o mundo. À primeira vista, até parece razoável. Mais escolha, mais diversidade… quem poderia opor-se?

E, no entanto, há ali qualquer coisa que inquieta.

Talvez porque, quando se mexe no que é “obrigatório”, mexe-se também numa ideia mais funda, a de património comum. Aquilo que, independentemente de gostos pessoais, se considera essencial partilhar. E Saramago, goste-se mais ou menos da sua escrita, sempre ocupou esse lugar quase indiscutido. Retirá-lo desse centro, mesmo que apenas formalmente, levanta inevitavelmente perguntas.

Quem decide o que é essencial?

E, já agora, com que critérios?

As reações dividiram-se. Uns viram na proposta uma espécie de desvalorização simbólica, afinal, trata-se do único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa. Outros preferiram um olhar mais pragmático, lembrando que o ensino não pode cristalizar-se, que deve abrir espaço a novas leituras, a novos autores, a outras sensibilidades. E talvez tenham razão… ou parte dela. Raramente estas questões se resolvem em termos absolutos.

A Fundação José Saramago, por exemplo, reagiu com uma serenidade quase desconcertante. Em vez de entrar em confronto, propôs algo simples e, de certo modo, elegante: não “Saramago ou outro autor”, mas “Saramago e outro autor”. Não excluir, acrescentar. Não substituir, ampliar. Há aqui uma ideia que merece atenção, essa noção de que a cultura não precisa de funcionar como um jogo de soma zero.

Entretanto, no espaço mediático, deu-se o previsível. A variação perdeu-se. A proposta tornou-se, em alguns discursos, uma decisão consumada. E isso diz também muito sobre o nosso tempo, essa pressa em concluir, em simplificar, em transformar possibilidades em certezas. Um certo ruído constante, quase de fundo, que torna tudo mais imediato… e, paradoxalmente, mais superficial.

Mas há um detalhe, pequeno, talvez, mas difícil de ignorar. Saramago, que tanto escreveu sobre mecanismos de poder, sobre estruturas invisíveis que moldam a realidade, acaba agora por ser objeto de uma decisão desse mesmo tipo. Não é propriamente irónico… é mais do que isso. É como se a própria história lhe devolvesse, em silêncio, uma das suas próprias perguntas.

No fim, fica uma sensação estranha, um pouco indefinida. Por um lado, percebe-se a necessidade de renovar, de abrir caminhos, de não transformar o ensino num museu imóvel. Por outro, há algo de inquietante em relativizar figuras que ajudaram a construir o próprio tecido cultural que agora se pretende reconfigurar.

Talvez a questão não esteja em manter tudo como está, nem em mudar por impulso. Talvez esteja, antes, nesse equilíbrio instável, quase difícil de alcançar, entre memória e renovação. Entre aquilo que herdámos e aquilo que queremos transmitir.

E, no meio disto tudo, permanece uma dúvida silenciosa, dessas que não se resolvem facilmente: quando deixamos de considerar algo essencial, será porque deixou realmente de o ser… ou porque, de algum modo, deixámos de saber reconhecê-lo como tal?

Comentários

Anónimo disse…
Não deixar caír em esquecimento mas dar a chance a outros escritores, acho muito bem. Viver o presente pensando no futuro, dar a chance a novos Autores que também merecem ser reconhecidos .

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