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O arco de volta perfeita em pedra

Rezam as crónicas familiares de que o meu bisavô Francisco Calisto construíra um arco de volta perfeita, em pedra, nas suas terras em A-da-Gorda. Sem nenhum conhecimento arquitetónico, mas, com um extremo sentido estético, centrou a sua edificação no respeito pelos desígnios do Grande Arquiteto, depois de ter diante de si alguns ensinamentos antigos, que lhe povoaram a mente de diversos valores morais. O arco de volta perfeita era o culminar de uma vedação unificada, toda ela de acácias, uma exótica planta de origem australiana que foi introduzida em Portugal, pela mão do homem, em meados do século XIX. Devido à sua riqueza ornamental, Francisco, achou por bem plantar a “Acácia dealbata”, como linha divisória, ao redor de suas terras. Depois de alguns anos, deixou de ser apenas para adorno, mas, também, para fornecimento de matéria-prima, passando a vender a casca para a indústria dos curtumes, tanto de Guimarães, quanto do Porto e de Alcanena, regiões que recebiam,...

A surpreendente italiana

Francisco Calisto adentrou a Porta da Vila. Ia a caminho de casa. Vinha cansado, com as botas cheias de terra e o estômago a pedir alimento. A sua rotina era metódica: Chegava, deixava a água da bica escarrapachar-se em si, lavando-o merecidamente, vestia uma roupa limpa, sentava-se para jantar, e saía, rumo aos lampiões que acendia, religiosamente, todo fim de tarde. Sim, Francisco, além de agricultor, era o Acendedor de Lampiões de Óbidos e de A-da-Gorda. Executava o serviço com lentidão, mas com alegria, no lombo de um muar. Era um período de muitas dificuldades no plano social e ele, devido ao contato diário com as populações de Óbidos e de A-da-Gorda, conhecia-as com profundidade. Essas localidades eram de expansão agrícola, e o comércio resumia-se a meia dúzia de vendas (pequenas mercearias) e tabernas. A agricultura, natural e familiar, era o ganha-pão da maioria dos habitantes. Quem não possuísse uma boa dúzia de enxadas, e as mãos calejadas, “não era filho de b...

O meu avô Manuel e a taberna do Antero

Repondo a História, fazendo Justiça: Caldas da Rainha, dos finais do século XIX até, quase, ao ano de 1995, era uma cidade repleta de tabernas. O meu avô Manuel, filho de Francisco Calisto e Cecília de Paulo, tinha três irmãos (Francisco, Joaquim e Mapril) e uma irmã (Cacilda). Esta irmã cresceu, casou (com Bernardino) e teve filhos (José, Maria, Nazaré e Antero). Cacilda, sendo a sua única irmã, era a menina querida dos seus olhos. O meu avô sempre foi um homem de trabalho, e um amparo familiar, e, como era um homem de visão comercial, teve uma vida equilibrada e próspera. Graças a essa estabilidade conseguiu ajudar a família. Nesse auxílio está uma generosa oferta ao sobrinho Antero no ano de 1957. Antero era um jovem e modesto agricultor no Pinhal (Óbidos), sem nenhuma perspetiva de mudar de profissão. Porém, numa certa tarde, o meu avô vai buscar o sobrinho e leva-o para as Caldas da Rainha. O destino era um singelo beco na área central da cidade. Em lá cheg...

Entre o silêncio e a meditação

Depois de algum tempo, decidi sair de casa. Arriscar-me, para contrair ideias para o romance em calha. Um passeio breve, sempre a fugir das pessoas que não encontrei. Durante todo o percurso vi pássaros, voltaram à cidade. Bandos, que haviam desaparecido por causa do ser, pouco humano, que se move desengonçadamente pelo planeta, causando estragos e trazendo desequilíbrios. Dois pavões cumprimentaram-me numa rua, ao abrirem, em leque, a sua matizada cauda. O que me fez pensar em atravessar um parque próximo. Surpreendentemente havia silêncio, pois as bocas barulhentas não subsistiam por ali. Ouvi mais passarinhos. Vi espécies que julgava extintas. Suas asas batiam ventos de uma harmonia impensada. Sorri. Vi ratos, um esquilo a subir no tronco de uma árvore, patos e gansos. Ouvi contrapontos, emitidos por uma bicharada insanamente bela. Nada abafou o som do meu deambular. Não sei se aprofundei a minha bhavana , ou o meu desenvolvimento mental. O que sei é que ...

Um pitoresco sendeiro de Olaias

No século XIX existiu, em A-da-Gorda, Óbidos, uma vereda inteiramente arborizada com garbosas Olaias (Cercis Siliquastrum), todas plantadas pelo meu bisavô Francisco Calisto, a ladear a rua de terra batida que ligava as suas chãs de plantio e a casa de sua futura esposa, Cecília de Paulo. Quando Francisco era menino, os seus pais, Joaquim Calisto e Maria Clara, adquiriram aquelas terras e, a partir desse ato, todos os dias, de carroça, faziam o percurso entre essa aldeia e o íntimo da Vila de Óbidos, onde residiam. Já acostumado ao lugar, o rapazola, quando não tinha aulas com o Mestre-escola, passava dias inteiros a desbravar a região. Era um petiz de paixões, entre estas, a de organizar molhos de variadas flores, para as entregar à mocinha dos seus amores. Tantas vezes o fez que, um dia, prometeu-lhe: “Se casares comigo, começo hoje a compor um caminho de Olaias entre a tua casa e as minhas terras”. Cecília, uma jovem muito bonita, com expressivos olhos azuis e ca...

Rua do Cosme Velho, nº 18

Aproximei-me da casa. Não havia grande movimento, apenas alguns transeuntes de um e do outro lado da artéria. No ano passado fui à inauguração do restaurante Bar Brasil, na Avenida Mem de Sá, na Lapa, foi lá que me disseram que o Bruxo estava doente. Este início de século XX é curioso. O Rio de Janeiro respira profundas modificações. Pereira Passos deseja fazê-la coirmã de Paris, em imagens de riqueza urbanística. A Belle Époque instala-se, os grandes Poetas ribombam, sendo aplaudidos quando surgem nas ruas. Existe uma febre confessional em torno de Bilac, Coelho Netto, Martins Fontes, Emílio de Menezes, Goulart de Andrade, entre outros. Salvo situações especiais, devido a impedimentos profissionais, os grandes nomes ainda se encontram, todas as tardes, na Colombo. O centro da cidade patenteia um ar de frescor que não imaginei ser possível. Laranjeiras mantém-se igual a si. Parece que as próprias pedras das ruas teimam em não envelhecer. Já aqui não vinha há...

Igreja de São Tiago

Localizada dentro das Muralhas da Vila de Óbidos, na Cerca Velha, esta igreja foi construída no ano de 1186, por expressa ordem do Rei D. Sancho I (1154-1211). É de estilo Barroco e Neoclássico, tendo, na sua origem, três naves, com o pórtico principal orientado a Oeste. A sua edificação foi imposta por aquele monarca, para que a família real tivesse, aquando da sua estadia na região, um local para as suas orações. Com o passar das centúrias, foi tendo o privilégio de receber inúmeras e riquíssimas obras de arte. Neste ponto podemos destacar a “Galeria da Rainha”, uma escultura de talha em estilo gótico, escola que floresceu na Idade Média, entre os séculos XII e XVI, sendo originária da cultura dos Godos, povos que eram tidos como bárbaros e alegados culpados pelo desaparecimento do Império Romano. Em Portugal, foi somente por volta do ano de 1250, século XIII, portanto, que esse estilo teve início. Uma das peças artísticas de maior valor, no interior da Igreja, era a ...